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Title: Sonetos Completos
Author: Espanca, Florbela (1894-1930)
Translator: Battelli, Guido (1869-1955)
Sculptor: Macedo, Diogo de (1889-1959)
Photographer: Anonymous
Date of first publication: 1934
Edition used as base for this ebook:
   Coimbra: Gonalves, 1934
Date first posted: 12 December 2010
Date last updated: 12 December 2010
Project Gutenberg Canada ebook #674

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Titre: Sonetos Completos
Auteur: Espanca, Florbela (1894-1930)
Traducteur: Battelli, Guido (1869-1955)
Sculpteur: Macedo, Diogo de (1889-1959)
Photographe: Anonyme
Date de la premire publication: 1934
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   lectronique: Coimbra: Gonalves, 1934
Date de la premire publication sur Project Gutenberg Canada:
   12 dcembre 2010
Date de la dernire mise  jour:
   12 dcembre 2010
Livre lectronique de Project Gutenberg Canada no 674

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Notas de transcrio:

A errata presente no final do volume foi aplicada.

Foram feitas correces adicionais que no vinham na errata:

* Pgina 121, linha 9 "Olha o nosso irmo Sol, nossa irm gua..."
corrigida para "Olha o nosso irmo Sol, nossa irm gua..."

* Pgina 142, linha 10 "--Quanto mais funda e lgubre e descida"
corrigida para "--Quanto mais funda e lgubre a descida"

* Pgina 175, linha 11 "Navios--fantasmas, perdem-se a distncia!"
corrigida para "Navios-fantasmas, perdem-se a distncia!"

O texto em itlico foi marcado com _.

Florbela Espanca (1894-1930)  una poetessa portoghese celebrata per i
suoi sonetti tragici. Guido Battelli (1869-1955) era un insegnante
italiano che fu conquistato dalla poesia di Florbela. I due divennero
molto amici e Guido pubblic questa edizione postuma completa della
sua poesia, includendo la propria traduzione di una selezione dei
sonetti di Florbela.




SONETOS COMPLETOS




DA AUTORA:


Livro de Mgoas, 1. ed. (esgotado).

Livro de Sror Sadade, 1. ed. (esgotado).


NA MESMA LIVRARIA:

Charneca em Flor, 1. e 2. ed. (esgotado).

Livro de Mgoas, Livro de Sror Sadade, 2. ed. (esgotado).

Juvenlia (versos).

Cartas.


EDIES MARANUS:

As mscaras do Destino (contos).


A SAIR:

O Domin negro (contos).


[Ilustrao: BUSTO DA AUTORA POR DIOGO DE MACEDO A ERIGIR EM VORA]




  FLORBELA ESPANCA

  Sonetos Completos

  LIVRO DE MGOAS
  LIVRO DE SROR SADADE
  CHARNECA EM FLOR
  RELIQUIAE

  COIMBRA

  MCMXXXIV

  LIVRARIA GONALVES
  Rua S de Miranda, 60




       *       *       *       *       *




LIVRO DE MGOAS

(1919)




   _Procuremos smente a Beleza, que a vida
     um punhado infantil de areia ressequida
    Um som d'gua ou de bronze e uma sombra que passa..._

                          EUGNIO DE CASTRO.

   _Isols dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,
    Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible,
    Seront deux rossignols que chantent dans le soir._

                                      VERLAINE.




STE LIVRO...


  ste livro  de mgoas. Desgraados
  Que no mundo passais, chorai ao l-lo!
  Smente a vossa dor de Torturados
  Pode, talvez, senti-lo... e compreend-lo.

  ste livro  para vs. Abenoados
  Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!
  Bblia de tristes...  Desventurados,
  Que a vossa imensa dor se acalme ao v-lo!

  Livro de Mgoas... Dores... Ansiedade!
  Livro de sombras... Nvoas... e Sadades!
  Vai pelo mundo... (Trouxe-o no meu seio...)

  Irmos na Dor, os olhos razos de gua,
  Chorai comigo a minha imensa mgoa,
  Lendo o meu livro s de mgoas cheio!...




VAIDADE


  Sonho que sou a Poetisa eleita,
  Aquela que diz tudo e tudo sabe,
  Que tem a inspirao pura e perfeita,
  Que rene num verso a imensidade!

  Sonho que um verso meu tem claridade
  Para encher todo o mundo! E que deleita
  Mesmo aqules que morrem de sadade!
  Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

  Sonho que sou Algum c neste mundo...
  Aquela de saber vasto e profundo,
  Aos ps de quem a terra anda curvada!

  E quando mais no cu eu vou sonhando,
  E quando mais no alto ando voando,
  Acordo do meu sonho...
                       E no sou nada!...




EU


  Eu sou a que no mundo anda perdida,
  Eu sou a que na vida no tem norte,
  Sou a irm do Sonho, e desta sorte
  Sou a crucificada... a dolorida...

  Sombra de nvoa tnue e esvaecida,
  E que o destino amargo, triste e forte,
  Impele brutalmente para a morte!
  Alma de luto sempre incompreendida!...

  Sou aquela que passa e ningum v...
  Sou a que chamam triste sem o ser...
  Sou a que chora sem saber porqu...

  Sou talvez a viso que Algum sonhou,
  Algum que veio ao mundo p'ra me ver
  E que nunca na vida me encontrou!




CASTEL DA TRISTEZA


  Altiva e couraada de desdm,
  Vivo szinha em meu castelo: a Dor!
  Passa por le a luz de todo o amor...
  E nunca em meu castelo entrou algum!

  Castel da Tristeza, vs?... A quem?...
  --E o meu olhar  interrogador--
  Prescruto, ao longe, as sombras do sol-pr...
  Chora o silncio... nada... ningum vem...

  Castel da Tristeza, porque choras
  Lendo, tda de branco, um livro de oras,
   sombra rendilhada dos vitrais?...

  A noite, debruada p'las ameias,
  Porque rezas baixinho?... Porque anseias?...
  Que sonho afagam tuas mos reais?...




TORTURA


  Tirar dentro do peito a Emoo,
  A lcida Verdade, o Sentimento!
  --E ser, depois de vir do corao,
  Um punhado de cinza esparso ao vento!...

  Sonhar um verso d'alto pensamento,
  E puro como um ritmo d'orao!
  --E ser, depois de vir do corao,
  O p, o nada, o sonho dum momento...

  So assim cos, rudes, os meus versos:
  Rimas perdidas, vendavais dispersos,
  Com que eu iludo os outros, com que minto!

  Quem me dera encontrar o verso puro,
  O verso altivo e forte, estranho e duro,
  Que dissesse, a chorar, isto que sinto!




LGRIMAS OCULTAS


  Se me ponho a cismar em outras eras
  Em que ri e cantei, em que era qu'rida,
  Parece-me que foi noutras esferas,
  Parece-me que foi numa outra vida...

  E a minha triste bca dolorida
  Que dantes tinha o rir das primaveras,
  Esbate as linhas graves e severas
  E cai num abandono de esquecida!

  E fico, pensativa, olhando o vago...
  Toma a brandura plcida dum lago
  O meu rosto de monja de marfim...

  E as lgrimas que choro, branca e calma,
  Ningum as v brotar dentro da alma!
  Ningum as v cair dentro de mim!




TRRE DE NVOA


  Subi ao alto,  minha Trre esguia,
  Feita de fumo, nvoas e luar,
  E pus-me, comovida, a conversar
  Com os poetas mortos, todo o dia.

  Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
  Dos versos que so meus, do meu sonhar,
  E todos os poetas, a chorar,
  Responderam-me ento: Que fantasia,

  Criana doida e crente! Ns tambm
  Tivemos iluses, como ningum,
  E tudo nos fugiu, tudo morreu!...

  Calaram-se os poetas, tristemente...
  E  desde ento que eu choro amargamente
  Na minha Trre esguia junto ao Cu!...




A MINHA DOR

A Voc.


  A minha Dor  um convento ideal
  Cheio de claustros, sombras, arcarias,
  Aonde a pedra em convulses sombrias
  Tem linhas dum requinte escultural.

  Os sinos tm dobres d'agonias
  Ao gemer, comovidos, o seu mal...
  E todos tm sons de funeral,
  Ao bater horas, no correr dos dias...

  A minha Dor  um convento. H lrios
  Dum roxo macerado de martrios,
  To belos como nunca os viu algum!

  Nesse triste convento aonde eu moro,
  Noites e dias rezo e grito e choro,
  E ningum ouve... ningum v... ningum...




DIZERES NTIMOS


   to triste morrer na minha idade!
  E vou ver os meus olhos, penitentes
  Vestidinhos de roxo, como crentes
  Do soturno convento da Sadade!

  E logo vou olhar (com que ansiedade!...)
  As minhas mos esguias, languescentes,
  De brancos dedos, uns bbs doentes
  Que ho de morrer em plena mocidade!

  E ser-se novo  ter-se o Paraso.
   ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
  Aonde tudo  luz e graa e riso!

  E os meus vinte e trs anos... (Sou to nova!)
  Dizem baixinho a rir: Que linda a vida!...
  Responde a minha Dor: Que linda a cova!




AS MINHAS ILUSES


  Hora sagrada dum entardecer
  D'Outono,  beira-mar, cr de safira.
  Soa no ar uma invisvel lira...
  O sol  um doente a enlanguescer...

  A vaga estende os braos a suster.
  Numa dor de revolta cheia de ira,
  A doirada cabea que delira
  Num ltimo suspiro, a estremecer.

  O sol morreu... e veste luto o mar...
  E eu vejo a urna d'oiro, a baloiar,
   flor das ondas num lenol de espuma.

  As minhas iluses, doce tesoiro,
  Tambm as vi levar em urna d'oiro.
  No Mar da Vida, assim... uma por uma...




NEURASTENIA


  Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
  Um sino dobra em mim, Ave-Marias!
  L fora, a chuva, brancas mos esguias,
  Faz na vidraa rendas de Veneza...

  O vento desgrenhado, chora e reza
  Por alma dos que esto nas agonias!
  E flocos de neve, aves brancas, frias,
  Batem as asas pela Natureza...

  Chuva... tenho tristeza! Mas porqu?
  Vento... tenho sadades! Mas de qu?
   neve que destino triste o nosso!

   chuva!  vento!  neve! Que tortura!
  Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
  Digam isto que sinto que eu no posso!!...




PEQUENINA

 Maria Helena Falco Risques.


  s pequenina e ris... A bca breve
   um pequeno idlio cr de rosa...
  Haste de lrio frgil e mimosa!
  Cofre de beijos feito sonho e neve!

  Doce quimera que a nossa alma deve
  Ao Cu que assim te fz to graciosa!
  Que nesta vida amarga e tormentosa
  Te fz nascer como um perfume leve!

  O ver o teu olhar faz bem  gente...
  E cheira e sabe, a nossa bca, a flores
  Quando o teu nome diz, suavemente...

  Pequenina que a Me de Deus sonhou,
  Que ela afaste de ti aquelas dores
  Que fizeram de mim isto que sou!




A MAIOR TORTURA

A Um Grande Poeta de Portugal.


  Na vida, para mim, no h deleite.
  Ando a chorar convulsa noite e dia...
  E no tenho uma sombra fugidia
  Onde poise a cabea, onde me deite!

  E nem flor de lilaz tenho que enfeite
  A minha atroz, imensa, nostalgia...
  A minha pobre Me to branca e fria
  Deu-me a beber a Mgoa no seu leite!

  Poeta, eu sou um cardo desprezado,
  A urze que se pisa sob os ps.
  Sou, como tu, um riso desgraado!

  Mas a minha tortura 'inda  maior:
  No ser poeta assim como tu s
  Para gritar num verso a minha Dor!...




A FLOR DO SONHO


  A flor do Sonho alvssima, divina,
  Miraculosamente abriu em mim,
  Como se uma magnlia de setim
  Fsse florir num muro todo em runa.

  Pende em meu seio a haste branda e fina
  E no posso entender como  que, emfim,
  Essa to rara flor abriu assim!...
  Milagre... fantasia... ou talvez, sina...

   Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
  Que tem que sejam tristes os meus olhos
  Se les so tristes pelo amor de ti?!...

  Desde que em mim nasceste em noite calma,
  Voou ao longe a asa da minh'alma
  E nunca, nunca mais eu me entendi...




NOITE DE SADADE


  A Noite vem pousando devagar
  Sbre a terra que inunda de amargura...
  E nem sequer a bno do luar
  A quis tornar divinamente pura...

  Ningum vem atrs dela a acompanhar
  A sua dor que  cheia de tortura...
  E eu oio a Noite imensa soluar!
  E eu oio soluar a Noite escura!

  Porque s assim to 'scura, assim to triste?
   que talvez,  Noite, em ti existe
  Uma Sadade igual  que eu contenho!

  Sadade que eu no sei donde me vem...
  Talvez de ti,  Noite!... Ou de ningum!...
  Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!




ANGSTIA


  Tortura do pensar! Triste lamento!
  Quem nos dera calar a tua voz!
  Quem nos dera c dentro, muito, a ss,
  Estrangular a hidra num momento!

  E no sequer pensar!... E o pensamento
  Sempre a morder-nos bem, dentro de ns...
  Qu'rer apagar no Cu-- sonho atroz!--
  O brilho duma estrla, com o vento!...

  E no se apaga, no... nada se apaga.
  Vem sempre rastejando como a vaga...
  Vem sempre preguntando: O que te resta?...

  Ah! no ser mais que o vago, o infinito!
  Ser pedao de gelo, ser granito,
  Ser rugido de tigre na floresta!




AMIGA


  Deixa-me ser tua amiga, Amor;
  A tua amiga s, j que no queres
  Que pelo teu amor seja a melhor
  A mais triste de tdas as mulheres.

  Que s, de ti, me venha mgoa e dor
  O que me importa a mim?! O que quiseres.
   sempre um sonho bom! Seja o que fr
  Bemdito sejas tu por mo dizeres!

  Beija-me as mos, Amor, devagarinho...
  Como se os dois nascessemos irmos,
  Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

  Beija-mas bem!... Que fantasia louca
  Guardar assim, fechados, nestas mos,
  Os beijos que sonhei p'ra minha bca...




DESEJOS VOS


  Eu qu'ria ser o Mar d'altivo porte
  Que ri e canta, a vastido imensa!
  Eu qu'ria ser a pedra que no pensa,
  A Pedra do caminho, rude e forte!

  Eu qu'ria ser o sol, a luz intensa,
  O bem do que  humilde e no tem sorte!
  Eu qu'ria ser a rvore tsca e densa
  Que ri do mundo vo e at da morte!

  Mas o Mar tambm chora de tristeza...
  As rvores, tambm, como quem reza,
  Abrem, aos Cus os braos, como um crente!

  E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia,
  Tem lgrimas de sangue na agonia!
  E as Pedras... essas... pisa-as tda a gente!...




PIOR VELHICE


  Sou vlha e triste. Nunca o alvorocer
  Dum riso so andou na minha bca!
  Gritando que me acudam, em voz rouca,
  Eu, Nufraga da Vida, ando a morrer!

  A Vida que ao nascer enfeita e touca
  D'alvas rosas, a fronte da mulher,
  Na minha fronte mstica de louca
  Martrios s poisou a emmurchecer!

  E dizem que sou nova... A mocidade
  Estar s, ento, na nossa idade,
  Ou est em ns e em nosso peito mora?!...

  Tenho a pior velhice, a que  mais triste,
  Aquela onde nem sequer existe
  Lembrana de ter sido nova... outrora...




A UM LIVRO


  No silncio de cinzas do meu Ser
  Agita-se uma sombra de cipreste.
  Sombra roubada ao livro que ando a ler
  A sse livro de mgoas que me deste.

  Estranho livro aqule que escreveste,
  Artista da sadade e do sofrer!
  Estranho livro aqule em que puseste
  Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

  Leio-o e folheio, assim, tda a minh'alma!
  O livro que me deste  meu e psalma
  As oraes que choro e rio e canto!...

  Poeta igual a mim, ai quem me dera
  Dizer o que tu dizes!... Quem soubera
  Velar a minha Dor dsse teu manto!...




ALMA PERDIDA


  Tda esta noite o rouxinol chorou,
  Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
  Alma de rouxinol, alma da gente,
  Tu s, talvez, algum que se finou!

  Tu s, talvez, um sonho que passou,
  Que se fundiu na Dor, suavemente...
  Talvez sejas a alma, alma doente
  D'algum que quis amar e nunca amou!

  Tda a noite choraste... e eu chorei
  Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
  Que ningum  mais triste do que ns!

  Contaste tanta coisa  noite calma,
  Que eu pensei que tu eras a minh'alma
  Que chorasse perdida em tua voz!...




DE JOELHOS


  Bemdita seja a me que te gerou.
  Bemdito o leite que te fz crescer.
  Bemdito o bero aonde te embalou
  A tua alma, p'ra te adormecer!

  Bemdita essa cano que acalentou
  Da tua vida o doce alvorecer...
  Bemdita seja a lua que inundou
  De luz, a terra, s para te ver...

  Bemditos sejam todos que te amarem,
  As que em volta de ti ajoelharem
  Numa grande paixo fervente e louca!

  E se mais que eu, um dia, te quiser
  Algum, bemdita seja essa Mulher,
  Bemdito seja o beijo dessa bca!!




LANGUIDEZ


  Tardes da minha terra, doce encanto,
  Tardes duma pureza d'aucenas,
  Tardes de sonho, as tardes de novenas,
  Tardes de Portugal, as tardes d'Anto,

  Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!...
  Horas bemditas, leves como penas,
  Horas de fumo e cinza, horas serenas,
  Minhas horas de dor em que eu sou santo!

  Fecho as plpebras roxas, qusi pretas,
  Que poisam sbre duas violetas,
  Asas leves cansadas de voar...

  E a minha bca tem uns beijos mudos...
  E as minhas mos, uns plidos veludos,
  Traam gestos de sonho pelo ar...




PARA QU?


  Tudo  vaidade neste mundo vo...
  Tudo  tristeza; Tudo  p,  nada!
  E mal desponta em ns a madrugada,
  Vem logo a noite encher o corao!

  At o amor nos mente, essa cano
  Que o nosso peito ri  gargalhada,
  Flor que  nascida e logo desfolhada,
  Ptalas que se pisam pelo cho!

  Beijos d'amor! P'ra qu?!... Tristes vaidades!
  Sonhos que logo so realidades,
  Que nos deixam a alma como morta!

  S acredita nles quem  louca!
  Beijos d'amor que vo de bca em bca,
  Como pobres que vo de porta em porta!...




AO VENTO


  O vento passa a rir, torna a passar,
  Em gargalhadas sp'ras de demente;
  E esta minh'alma trgica e doente
  No sabe se h de rir, se h de chorar!

  Vento de voz tristonha, voz plangente,
  Vento que ris de mim, sempre a troar,
  Vento que ris do mundo e do amar,
  A tua voz tortura tda a gente!...

  Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
  Desabafa essa dor a ss comigo,
  E no rias assim!...  vento, chora!

  Que eu bem conheo, amigo, sse fadrio
  Do nosso peito ser como um calvrio,
  E a gente andar a rir p'la vida fora!!...




TDIO


  Passo plida e triste. Oio dizer
  Que branca que ela ! Parece morta!
  E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
  No tenho um gesto, ou um olhar sequer...

  Que diga o mundo e a gente o que quiser!
  --O que  que isso me faz?... O que me importa?...
  O frio que trago dentro gela e corta
  Tudo que  sonho e graa na mulher!

  O que  que me importa?! Essa tristeza
   menos dor intensa que frieza,
   um tdio profundo de viver!

  E  tudo sempre o mesmo, eternamente...
  O mesmo lago plcido, dormente...
  E os dias, sempre os mesmos, a correr...




MINHA TRAGDIA


  Tenho dio  luz e raiva  claridade
  Do sol, alegre, quente, na subida.
  Parece que a minh'alma  perseguida
  Por um carrasco cheio de maldade!

   minha v, intil mocidade
  Trazes-me embriagada, entontecida!...
  Duns beijos que me destes noutra vida,
  Trago em meus lbios roxos, a sadade!...

  Eu no gosto do sol, eu tenho mdo
  Que me leiam nos olhos o segrdo
  De no amar ningum, de ser assim!

  Gosto da Noite imensa, triste, preta,
  Como esta estranha e doida borboleta
  Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...




SEM REMDIO


  Aqules que me tm muito amor
  No sabem o que sinto e o que sou...
  No sabem que passou, um dia a Dor,
   minha porta e, nesse dia, entrou.

  E  desde ento que eu sinto ste pavor,
  ste frio que anda em mim, e que gelou
  O que de bom me deu Nosso Senhor!
  Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

  Sinto os passos da Dor, essa cadncia
  Que  j tortura infinda, que  demncia!
  Que  j vontade doida de gritar!

  E  sempre a mesma mgoa, o mesmo tdio,
  A mesma angstia funda, sem remdio,
  Andando atrs de mim, sem me largar...




MAIS TRISTE


   triste, diz a gente, a vastido
  Do Mar imenso! E aquela voz fatal
  Com que le fala, agita o nosso mal!
  E a Noite  triste como a Extrma-Uno!

   triste e dilacera o corao
  Um poente do nosso Portugal!
  E no vem que eu sou... eu... afinal,
  A coisa mais magoada das que o so?!...

  Poentes d'agonia trago-os eu
  Dentro de mim e tudo quanto  meu
   um triste poente de amargura!

  E a vastido do Mar, tda essa gua
  Trago-a dentro de mim num Mar de Mgoa!
  E a Noite sou eu prpria! A Noite escura!!




VLHINHA


  Se os que me viram j cheia de graa
  Olharem bem de frente para mim,
  Talvez, cheios de dor digam assim:
  J ela  vlha! Como o tempo passa!...

  No sei rir e cantar por mais que faa!
   minhas mos talhadas em marfim,
  Deixem sse fio d'oiro que esvoaa!
  Deixem correr a vida at ao fim!

  Tenho vinte-e-trs anos! Sou vlhinha!
  Tenho cabelos brancos e sou crente...
  J murmuro oraes... falo szinha...

  E o bando cr de rosa dos carinhos
  Que tu me fazes, olho-os indulgente,
  Como se fsse um bando de ntinhos...




EM BUSCA DO AMOR


  O meu Destino disse-me a chorar:
  Pela estrada da Vida vai andando;
  E, aos que vires passar, interrogando
  Acrca do Amor que hs de encontrar.

  Fui pela estrada a rir e a cantar,
  As contas do meu sonho desfiando...
  E noite e dia,  chuva e ao luar,
  Fui sempre caminhando e preguntando...

  Mesmo a um vlho eu preguntei: Vlhinho
  Viste o Amor acaso em teu caminho?
  E o vlho estremeceu... olhou... e riu...

  Agora pela estrada, j cansados
  Voltam todos p'ra trs desanimados...
  E eu paro a murmurar: Ningum o viu!...




IMPOSSVEL


  Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
  Parece Sexta-feira de Paixo.
  Sempre a cismar, cismar, d'olhos no cho,
  Sempre a pensar na dor que no existe...

  O que  que tem?! To nova e sempre triste!
  Faa por 'star contente! Pois ento?!...
  Quando se sofre o que se diz  vo...
  Meu corao, tudo, calado ouviste...

  Os meus males ningum mos adivinha...
  A minha Dor no fala, anda szinha...
  Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!...

  Os males d'Anto tda a gente os sabe!
  Os meus... ningum... A minha Dor no cabe
  Nos cem milhes de versos que eu fizera!...




       *       *       *       *       *




LIVRO DE SROR SADADE

(1923)




          Irm, Sror Sadade, ah! se eu pudesse
          Tocar de aspirao a nossa vida,
          Fazer do mundo a Terra Prometida
          Que ainda em sonho s vezes me aparece!

          =Amrico Duro=.


                    Il n'a pas  se plaindre celui qui attend
                    un sentiment plus ardent et plus gnreux.
                    Il n'a pas  se plaindre celui qui attend le
                    dsir d'un peu plus de bonheur, d'un peu plus
                    de beaut, d'un peu plus de justice.

                    =Maeterlinck=--La Sagesse et la Destine.




SROR SADADE

                    A Amrico Duro.


  Irm, Sror Sadade me chamaste...
  E na minh'alma o nome iluminou-se
  Como um vitral ao sol, como se fsse
  A luz do prprio sonho que sonhaste.

  Numa tarde de outono o murmuraste:
  Tda a mgoa do outono le me trouxe:
  Jamais me ho de chamar outro mais doce:
  Com le bem mais triste me tornaste...

  E baixinho, na alma de minh'alma,
  Como bno de sol que afaga e acalma,
  Nas horas ms de febre e de ansiedade,

  Como se fssem ptalas caindo,
  Digo as palavras dsse nome lindo
  Que tu me deste: Irm, Sror Sadade...




O NOSSO LIVRO

                    A A. G.


  Livro do meu amor, do teu amor,
  Livro do nosso amor, do nosso peito...
  Abre-lhe as flhas devagar, com geito,
  Como se fssem ptalas de flor.

  Olha que eu outro j no sei compor
  Mais santamente triste, mais perfeito.
  No esfolhes os lrios com que  feito
  Que outros no tenho em meu jardim de dor!

  Livro de mais ningum! S meu! S teu!
  Num sorriso tu dizes e digo eu:
  Versos s nossos mas que lindos sois!

  Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente
  Dir, fechando o livro docemente:
  Versos s nossos, s de ns os dois!...




O QUE TU S


  s Aquela que tudo te entristece,
  Irrita e amargura, tudo humilha;
  Aquela a quem a Mgoa chamou filha;
  A que aos homens e a Deus nada merece.

  Aquela que o sol claro entenebrece,
  A que nem sabe a estrada que ora trilha,
  Que nem um lindo amor de maravilha
  Sequer deslumbra, e ilumina e esquece!

  Mar-Morto sem mars nem ondas largas,
  A rastejar no cho, como as mendigas,
  Todo feito de lgrimas amargas!

  s ano que no teve primavera...
  Ah! No seres como as outras raparigas
   Princesa Encantada da Quimera!...




FANATISMO


  Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida,
  Meus olhos andam cegos de te ver!
  No s sequer razo do meu viver,
  Pois que tu s j tda a minha vida!

  No vejo nada assim enlouquecida...
  Passo no mundo, meu Amor, a ler
  No misterioso livro do teu ser
  A mesma histria tantas vezes lida!

  Tudo no mundo  frgil, tudo passa...
  Quando me dizem isto, tda a graa
  Duma bca divina fala em mim!

  E, olhos postos em ti, digo de-rastros:
  Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
  Que tu s como Deus: Principio e Fim!...




ALENTEJANO

                     Buja.


  Deu agora meio-dia; o sol  quente
  Beijando a urze triste dos outeiros.
  Nas ravinas do monte andam ceifeiros
  Na faina, alegres, desde o sol nascente.

  Cantam as raparigas, brandamente,
  Brilham os olhos negros, feiticeiros;
  E h perfis delicados e trigueiros
  Entre as altas espigas d'oiro ardente.

  A terra prende aos dedos sensuais
  A cabeleira loira dos trigais
  Sob a bno dulcssima dos cus.

  H gritos arrastados de cantigas...
  E eu sou uma daquelas raparigas...
  E tu passas e dizes: Salve-os Deus!




FUMO


  Longe de ti so ermos os caminhos,
  Longe de ti no h luar nem rosas,
  Longe de ti h noites silenciosas,
  H dias sem calor, beirais sem ninhos!

  Meus olhos so dois vlhos pobrezinhos
  Perdidos pelas noites invernosas...
  Abertos, sonham mos cariciosas,
  Tuas mos doces, plenas de carinhos!

  Os dias so outonos: choram... choram...
  H crisntemos roxos que descoram...
  H murmrios dolentes de segredos...

  Invoco o nosso sonho! Estendo os braos!
  E le ,  meu Amor, pelos espaos,
  Fumo leve que foge entre os meus dedos!...




QUE IMPORTA?...


  Eu era a desdenhosa, a indiferente.
  Nunca sentira em mim o corao
  Bater em violncias de paixo,
  Como bate no peito  outra gente.

  Agora, olhas-me tu altivamente,
  Sem sombra de desejo ou de emoo.
  Emquanto as asas loiras da iluso
  Abrem dentro de mim ao sol nascente.

  Minh'alma, a pedra, transformou-se em fonte:
  Como nascida em carinhoso monte,
  Tda ela  riso e  frescura e graa!

  Nela refresca a bca um s instante...
  Que importa?... Se o cansado viandante
  Bebe em tdas as fontes... quando passa?...




MEU ORGULHO


  Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
  No me lembrar! Em tardes dolorosas
  Eu lembro-me que fui a primavera
  Que em muros vlhos fz nascer as rosas!

  As minhas mos outrora carinhosas.
  Pairavam como pombas... Quem soubera
  Porque tudo passou e foi quimera,
  E porque os muros vlhos no do rosas!

  So sempre os que eu recordo que me esquecem...
  Mas digo para mim no me merecem...
  E j no fico to abandonada!

  Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
  Que tambm  orgulho ser szinha,
  E tambm  nobreza no ter nada!




OS VERSOS QUE TE FIZ


  Deixa dizer-te os lindos versos raros
  Que a minha bca tem p'ra te dizer!
  So talhados em mrmore de Paros
  Cinzelados por mim p'ra te oferecer.

  Tm dolncia de veludos caros,
  So como sdas plidas a arder...
  Deixa dizer-te os lindos versos raros
  Que foram feitos p'ra te endoidecer!

  Mas, meu Amor, eu no t'os digo ainda...
  Que a bca da mulher  sempre linda
  Se dentro guarda um verso que no diz!

  Amo-te tanto! E nunca te beijei...
  E nesse beijo, Amor, que eu te no dei
  Guardo os versos mais lindos que te fiz!




FRIEZA


  Os teus olhos so frios como as espadas,
  E claros como os trgicos punhais;
  Tm brilhos cortantes de metais
  E fulgores de lminas geladas.

  Vejo nles imagens retratadas
  De abandonos cruis e desleais,
  Fantsticos desejos irreais,
  E todo o oiro e o sol das madrugadas!

  Mas no te invejo, Amor, essa indiferena,
  Que viver neste mundo sem amar
   pior que ser cego de nascena!

  Tu invejas a dor que vive em mim!
  E quanta vez dirs a soluar:
  Ah! Quem me dera, Irm amar assim...




O MEU MAL

                    A meu Irmo.


  Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
  Eu sei o nome ao meu estranho mal:
  Eu sei que fui a renda dum vitral,
  Que fui cipreste e caravela e dor!

  Fui tudo que no mundo h de maior;
  Fui cisne e lrio e guia e catedral!
  E fui, talvez, um verso de Nerval,
  Ou um cnico riso de Chamfort...

  Fui a herldica flor de agrestes cardos,
  Deram as minhas mos aroma aos nardos...
  Deu cr ao eloendro a minha bca...

  Ah! De Boabdil fui lgrima na Espanha!
  E foi de l que eu trouxe esta nsia estranha!
  Mgoa no sei de qu! Sadade louca!




A NOITE DESCE


  Como plpebras roxas que tombassem
  Sbre uns olhos cansados, carinhosas,
  A noite desce... Ah! doces mos piedosas
  Que os meus olhos tristssimos fechassem!

  Assim mos de bondade me embalassem!
  Assim me adormecessem, caridosas,
  E em braadas de lrios e mimosas,
  No crepsculo que desce me enterrassem!

  A noite em sombra e fumo se desfaz...
  Perfume de baunilha ou de lilaz,
  A noite pe-me embriagada, louca!

  E a noite vai descendo muda e calma...
  Meu doce Amor, tu beijas a minh'alma
  Beijando nesta hora a minha bca!




CARAVELAS


  Cheguei a meio da vida j cansada
  De tanto caminhar! J me perdi!
  Dum estranho pais que nunca vi
  Sou neste mundo imenso a exilada.

  Tanto tenho aprendido e no sei nada.
  E as trres de marfim que constru
  Em trgica loucura as destru
  Por minhas prprias mos de malfadada!

  Se eu sempre fui assim ste Mar Morto:
  Mar sem mars, sem vagas e sem prto
  Onde velas de sonhos se rasgaram!

  Caravelas doiradas a bailar...
  Ai, quem me dera as que eu deitei ao Mar!
  As que eu lanei  vida e no voltaram!...




INCONSTNCIA


  Procurei o amor, que me mentiu.
  Pedi  Vida mais do que ela dava;
  Eterna sonhadora edificava
  Meu castelo de luz que me caiu!

  Tanto claro nas trevas refulgiu,
  E tanto beijo a bca me queimava!
  E era o sol que os longes deslumbrava
  Igual a tanto sol que me fugiu!

  Passei a vida a amar e a esquecer...
  Atrs do sol dum dia outro a aquecer
  As brumas dos atalhos por onde ando...

  E ste amor que assim me vai fugindo
   igual a outro amor que vai surgindo,
  Que h de partir tambm... nem eu sei quando...




O NOSSO MUNDO


  Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
  Como um divino vinho de Falerno!
  Poisando em ti o meu olhar eterno
  Como poisam as flhas sbre os lagos...

  Os meus sonhos agora so mais vagos...
  O teu olhar em mim, hoje  mais terno...
  E a Vida j no  o rubro inferno
  Todo fantasmas tristes e presagos!

  A Vida, meu Amor, quero viv-la!
  Na mesma taa erguida em tuas mos.
  Bcas unidas hemos de beb-la!

  Que importa o mundo e as iluses defuntas?...
  Que importa o mundo e seus orgulhos vos?...
  O mundo, Amor!... As nossas bcas juntas!...




PRINCE CHARMANT...

                    A Ral Proena.


  No lnguido esmaecer das amorosas
  Tardes que morrem voluptuosamente
  Procurei-O no meio de tda a gente.
  Procurei-O em horas silenciosas!

   noites da minh'alma tenebrosas!
  Bcas sangrando beijos, flor que sente...
  Olhos postos num sonho, humildemente...
  Mos cheias de violetas e de rosas...

  E nunca O encontrei!... Prince Charmant...
  Como audaz cavaleiro em vlhas lendas
  Vir, talvez, nas nvoas da manh!

  Em tda a nossa vida anda a quimera
  Tecendo em frgeis dedos frgeis rendas...
  --Nunca se encontra Aqule que se espera...--




ANOITECER


  A luz desmaia num fulgor d'aurora,
  Diz-nos adeus religiosamente...
  E eu que no creio em nada, sou mais crente
  Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

  No sei o que em mim ri, o que em mim chora,
  Tenho bnos d'amor p'ra tda a gente!
  E a minha alma sombria e penitente
  Solua no infinito desta hora...

  Horas tristes que so o meu rosrio...
   minha cruz de to pesado lenho!
   meu spero e intrmino Calvrio!

  E a esta hora tudo em mim revive:
  Sadades de sadades que no tenho...
  Sonhos que so os sonhos dos que eu tive...




ESFINGE


  Sou filha da charneca erma e selvagem:
  Os giestais, por entre os rosmaninhos,
  Abrindo os olhos d'oiro, p'los caminhos,
  Desta minh'alma ardente so a imagem.

  E ansiosa desejo-- v miragem--
  Que tu e eu, em beijos e carinhos.
  Eu a Charneca, e tu o Sol, szinhos,
  Fssemos um pedao da pasagem!

  E  noite,  hora doce da ansiedade,
  Ouviria da bca do luar
  O _De Profundis_ triste da sadade...

  E,  tua espera, emquanto o mundo dorme,
  Ficaria, olhos quietos, a cismar...
  Esfinge olhando, na plancie enorme...




TARDE DEMAIS


  Quando chegaste emfim, para te ver
  Abriu-se a noite em mgico luar;
  E p'ra o som de teus passos conhecer
  Ps-se o silncio, em volta, a escutar...

  Chegaste, emfim! Milagre de endoidar!
  Viu-se nessa hora o que no pode ser:
  Em plena noite, a noite iluminar
  E as pedras do caminho florescer!

  Beijando a areia d'oiro dos desertos
  Procurara-te em vo! Braos abertos,
  Ps nus, olhos a rir, a bca em flor!

  E h cem anos que eu era nova e linda!...
  E a minha bca morta grita ainda:
  Porque chegaste tarde,  meu Amor?!...




CINZENTO


  Poeiras de crepsculos cinzentos.
  Lindas rendas vlhinhas, em pedaos,
  Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braos,
  Como brancos fantasmas, sonolentos...

  Monges soturnos deslizando lentos,
  Devagarinho, em misteriosos passos...
  Perde-se a luz em lnguidos cansaos...
  Ergue-se a minha cruz dos desalentos!

  Poeiras de crepsculos tristonhos,
  Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos,
  A nvoa das sadades que deixaste!

  Hora em que o teu olhar me deslumbrou...
  Hora em que a tua bca me beijou...
  Hora em que fumo e nvoa te tornaste...




NOTURNO


  Amor! Anda o luar, todo bondade,
  Beijando a terra, a desfazer-se em luz...
  Amor! So os ps brancos de Jesus
  Que andam pisando as ruas da cidade!

  E eu ponho-me a pensar... Quanta sadade
  Das iluses e risos que em ti pus!
  Traaste em mim os braos duma cruz,
  Nles pregaste a minha mocidade!

  Minh'alma, que eu te dei, cheia de mgoas,
   nesta noite o nenfar dum lago
  Estendendo as asas brancas sbre as guas!

  Poisa as mos nos meus olhos, com carinho,
  Fecha-os num beijo dolorido e vago...
  E deixa-me chorar devagarinho...




MARIA DAS QUIMERAS


  Maria das Quimeras me chamou
  Algum... Pelos castelos que eu ergui,
  P'las flores d'oiro e azul que a sol teci
  Numa tela de sonho que estalou.

  Maria das Quimeras me ficou;
  Com elas na minh'alma adormeci.
  Mas, quando despertei, nem uma vi,
  Que da minh'alma, Algum, tudo levou!

  Maria das Quimeras, que fim deste
  s flores d'oiro e azul que a sol bordaste,
  Aos sonhos tresloucados que fizeste?

  Pelo mundo, na vida, o que  que esperas?...
  Aonde esto os beijos que sonhaste,
  Maria das Quimeras, sem quimeras?




SADADES


  Sadades! Sim... talvez... e porque no?...
  Se o nosso sonho foi to alto e forte
  Que bem pensara v-lo at  morte
  Deslumbrar-me de luz o corao!

  Esquecer! Para qu?... Ah, como  vo!
  Que tudo isso, Amor, nos no importe.
  Se le deixou beleza que conforte
  Deve-nos ser sagrado como o po!

  Quantas vezes, Amor, j te esqueci,
  Para mais doidamente me lembrar,
  Mais doidamente me lembrar de ti!

  E quem dera que fsse sempre assim:
  Quanto menos quisesse recordar
  Mais a sadade andasse prsa a mim!




RUNAS


  Se  sempre outono o rir das primaveras,
  Castelos, um a um deixa-os cair...
  Que a vida  um constante derruir
  De palcios do Reino das Quimeras!

  E deixa sbre as runas crescer heras.
  Deixa-as beijar as pedras e florir!
  Que a vida  um continuo destruir
  De palcios do Reino das Quimeras!

  Deixa tombar meus rtilos castelos!
  Tenho ainda mais sonhos para ergu-los
  Mais altos do que as guias pelo ar!

  Sonhos que tombam! Derrocada louca!
  So como os beijos duma linda bca!
  Sonhos!... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...




CREPSCULO


  Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes
  Borboletas de sol, de asas magoadas.
  Poisam nos meus, suaves e cansadas,
  Como em dois lrios roxos e dolentes...

  E os lrios, fecham... Meu amor no sentes?
  Minha bca tem rosas desmaiadas,
  E as minhas pobres mos so maceradas
  Como vagas sadades de doentes...

  O silncio abre as mos... entorna rosas...
  Andam no ar carcias vaporosas
  Como plidas sdas, arrastando...

  E a tua bca rubra ao p da minha
   na suavidade da tardinha
  Um corao ardente, palpitando...




DIO?

                     Aurora Aboim.


  dio por le? No... Se o amei tanto,
  Se tanto bem lhe quis no meu passado.
  Se o encontrei depois de o ter sonhado,
  Se  vida assim roubei todo o encanto...

  Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
  Turva o meu triste olhar, marmorizado,
  Olhar de monja, trgico, gelado,
  Como um soturno e enorme Campo Santo!

  Ah! Nunca mais am-lo  j bastante!
  Quero senti-lo doutra, bem distante,
  Como se fra meu, calma e serena!

  dio seria em mim sadade infinda,
  Mgoa de o ter perdido, amor ainda.
  dio por le? No... no vale a pena...




RENNCIA


  A minha mocidade outrora eu pus
  No tranqilo convento da tristeza;
  L passa dias, noites, sempre prsa,
  Olhos fechados, magras mos em cruz...

  L fora, a Lua, Satanaz, seduz!
  Desdobra-se em requintes de Beleza...
   como um beijo ardente a Natureza...
  A minha cela  como um rio de luz...

  Fecha os teus olhos bem! No vejas nada!
  Empalidece mais! E, resignada,
  Prende os teus braos a uma cruz maior!

  Gela ainda a mortalha que te encerra!
  Enche a bca de cinzas e de terra,
   minha mocidade tda em flor!




A VIDA


   vo o amor, o dio, ou o desdm;
  Intil o desejo e o sentimento...
  Lanar um grande amor aos ps d'algum
  O mesmo  que lanar flores ao vento!

  Todos somos no mundo um Pedro Sem,
  Uma alegria  feita dum tormento,
  Um riso  sempre o eco dum lamento,
  Sabe-se l um beijo donde vem!

  A mais nobre iluso morre... desfaz-se...
  Uma sadade morta em ns renasce
  Que no mesmo momento  j perdida...

  Amar-te a vida inteira eu no podia.
  A gente esquece sempre o bem dum dia.
  Que queres, meu Amor, se  isto a vida!...




HORAS RUBRAS


  Horas profundas, lentas e caladas
  Feitas de beijos sensuais e ardentes,
  De noites de volpia, noites quentes
  Onde h risos de virgens desmaiadas...

  Oio as olaias rindo desgrenhadas...
  Tombam astros em fogo, astros dementes.
  E do luar os beijos languescentes
  So pedaos de prata p'las estradas...

  Os meus lbios so brancos como lagos...
  Os meus braos so leves como afagos,
  Vestiu-os o luar de sdas puras...

  Sou chama e neve branca e misteriosa...
  E sou, talvez, na noite voluptuosa,
   meu Poeta, o beijo que procuras!




SUAVIDADE


  Poisa a tua cabea dolorida
  To cheia de quimeras, de ideal,
  Sbre o regao branco e maternal
  Da tua doce Irm compadecida.

  Hs de contar-me nessa voz to qu'rida
  A tua dor que julgas sem igual,
  E eu, p'ra te consolar, direi o mal
  Que  minha alma profunda fz a Vida.

  E hs de adormecer nos meus joelhos...
  E os meus dedos enrugados, vlhos,
  Ho de fazer-se leves e suaves...

  Ho de pousar-se num fervor de crente.
  Rosas brancas tombando docemente,
  Sbre o teu rosto, como penas d'aves...




PRINCESA DESALENTO


  Minh'alma  a Princesa Desalento,
  Como um Poeta lhe chamou, um dia.
   magoada e plida e sombria,
  Como soluos trgicos do vento!

   frgil como o sonho dum momento;
  Soturna como preces de agonia,
  Vive do riso duma bca fria:
  Minh'alma  a Princesa Desalento...

  Altas horas da noite ela vagueia...
  E ao luar suavssimo, que anseia,
  Pe-se a falar de tanta coisa morta!

  O luar ouve a minh'alma, ajoelhado,
  E vai traar, fantstico e gelado,
  A sombra duma cruz  tua porta...




SOMBRA


  De olheiras roxas, roxas, qusi pretas,
  De olhos lmpidos, doces, languescentes,
  Lagos em calma, plidos, dormentes.
  Onde se debruassem violetas...

  De mos esguias, finas hastes quietas,
  Que o vento no baloia em noites quentes...
  Nocturno de Chopin... risos dolentes...
  Versos tristes em sonhos de Poetas...

  Beijo doce de aromas perturbantes...
  Rosal bemdito que d rosas... Dantes
  Esta era Eu e Eu era a Idolatrada!...

  Oh tanta cinza morta... o vento a leve!
  Vou sendo agora em ti a sombra leve
  D'algum que dobra a curva duma estrada...




HORA QUE PASSA


  Vejo-me triste, abandonada e s
  Bem como um co sem dono e que o procura,
  Mais pobre e desprezada do que Job
  A caminhar na via da amargura!

  Judeu Errante que a ningum faz d!
  Minh'alma triste, dolorida e escura,
  Minh'alma sem amor  cinza e p,
  Vaga roubada ao Mar da Desventura!

  Que tragdia to funda no meu peito!...
  Quanta iluso morrendo que esvoaa!
  Quanto sonho a nascer e j desfeito!

  Deus! Como  triste a hora quando morre...
  O instante que foge, va, e passa...
  Fiozinho d'gua triste... a vida corre...




DA MINHA JANELA


  Mar alto! Ondas quebradas e vencidas
  Num soluar aflito e murmurado...
  Vo de gaivotas, leve, imaculado,
  Como neves nos pncaros nascidas!

  Sol! Ave a tombar, asas j feridas,
  Batendo ainda num arfar pausado...
   meu doce poente torturado
  Rezo-te em mim, chorando, mos erguidas!

  Meu verso de Samain cheio de graa,
  'Inda no s claro j s luar
  Como um branco lilaz que se desfaa!

  Amor! Teu corao trago-o no peito...
  Pulsa dentro de mim como ste mar
  Num beijo eterno, assim, nunca desfeito!...




SOL POENTE


  Tardinha... Ave Maria, Me de Deus...
  E reza a voz dos sinos e das noras...
  O sol que morre tem clares d'auroras,
  guia que bate as asas pelos cus!

  Horas que tem a cr dos olhos teus...
  Horas evocadoras doutras horas...
  Lembranas de fantsticos outroras,
  De sonhos que no tenho e que eram meus!

  Horas em que as sadades, p'las estradas
  Inclinam as cabeas mart'risadas
  E ficam pensativas... meditando...

  Morrem verbenas silenciosamente...
  E o rubro sol da tua bca ardente
  Vai-me a plida bca desfolhando...




EXALTAO


  Viver!... Beber o vento e o sol!... Erguer
  Ao cu os coraes a palpitar!
  Deus fz os nossos braos p'ra prender,
  E a bca fz-se sangue p'ra beijar!

  A chama, sempre rubra, ao alto a arder!...
  Asas sempre perdidas a pairar,
  Mais alto para as estrlas desprender!...
  A glria!... A fama!... O orgulho de criar!...

  Da vida tenho o mel e tenho os travos
  No lago dos meus olhos de violetas,
  Nos meus beijos extticos, pagos!...

  Trago na bca o corao dos cravos!
  Bomios, vagabundos, e poetas:
  --Como eu sou vossa Irm,  meus Irmos!...




       *       *       *       *       *




CHARNECA EM FLOR




         _Amar, amar, amar, amar, siempre y con todo
          El ser y con la tierra y con el cielo,
          Con lo claro del sol y lo obscuro del lodo,
          Amar por toda ciencia y amar por todo anhelo._

         _Y cuando la montaa de la vida
          Nos sea dura y larga, y alta, y llena de abismos,
          Amar la immensidad, que es de amor encendida,
          Y arder en la fusin de nuestros pechos mismos..._

                                                    RUBN DARO.




CHARNECA EM FLOR


  Enche o meu peito, num encanto mago,
  O frmito das coisas dolorosas...
  Sob as urzes queimadas nascem rosas...
  Nos meus olhos as lgrimas apago...

  Anseio! Asas abertas! O que trago
  Em mim? Eu oio bcas silenciosas
  Murmurar-me as palavras misteriosas
  Que perturbam meu ser como um afago!

  E, nesta febre ansiosa que me invade,
  Dispo a minha mortalha, o meu burel,
  E, j no sou, Amor, Sror Sadade...

  Olhos a arder em xtases de amor,
  Bca a saber a sol, a fruto, a mel:
  Sou a charneca rude a abrir em flor!




VERSOS DE ORGULHO


  O mundo quer'me mal porque ningum
  Tem asas como eu tenho! Porque Deus
  Me fz nascer Princesa entre plebeus
  Numa trre de orgulho e de desdm.

  Porque o meu Reino fica para alm...
  Porque trago no olhar os vastos cus
  E os oiros e clares so todos meus!
  Porque eu sou Eu e porque Eu sou Algum!

  O mundo? O que  o mundo,  meu Amor?
  --O jardim dos meus versos todo em flor...
  A seara dos teus beijos, po bemdito...

  Meus xtases, meus sonhos, meus cansaos...
  --So os teus braos dentro dos meus braos
  Via-lctea fechando o Infinito.




RSTICA


  Ser a moa mais linda do povoado,
  Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
  Ver descer sbre o ninho aconchegado
  A bno do Senhor em cada filho.

  Um vestido de chita bem lavado,
  Cheirando a alfazema e a tomilho...
  Com o luar matar a sde ao gado,
  Dar s pombas o sol num gro de milho...

  Ser pura como a gua da cisterna,
  Ter confiana numa vida eterna
  Quando descer  terra da verdade...

  Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
  Dou por elas meu trono de Princesa,
  E todos os meus Reinos de Ansiedade.




REALIDADE


  Em ti o meu olhar fz-se alvorada
  E a minha voz fz-se gorjeio de ninho...
  E a minha rubra bca apaixonada
  Teve a frescura plida do linho...

  Embriagou-me o teu beijo como um vinho
  Fulvo de Espanha, em taa cinzelada...
  E a minha cabeleira desatada
  Ps a teus ps a sombra dum caminho...

  Minhas plpebras so cr de verbena,
  Eu tenho os olhos garos, sou morena,
  E para te encontrar foi que eu nasci...

  Tens sido vida fora o meu desejo
  E agora, que te falo, que te vejo,
  No sei se te encontrei... se te perdi...




CONTO DE FADAS


  Eu trago-te nas mos o esquecimento
  Das horas ms que tens vivido, Amor!
  E para as tuas chagas o ungento
  Com que sarei a minha prpria dor.

  Os meus gestos so ondas de Sorrento...
  Trago no nome as letras duma flor...
  Foi dos meus olhos garos que um pintor
  Tirou a luz para pintar o vento...

  Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
  O manto dos crepsculos da tarde,
  O sol que  de oiro, a onda que palpita.

  Dou-te, comigo, o mundo que Deus fz!
  --Eu sou Aquela de quem tens sadade,
  A princesa do conto: Era uma vez...




A UM MORIBUNDO


  No tenhas mdo, no! Tranqilamente,
  Como adormece a noite pelo Outono,
  Fecha os teus olhos, simples, docemente,
  Como,  tarde, uma pomba que tem sono...

  A cabea reclina levemente
  E os braos deixa-os ir ao abandno,
  Como tombam, arfando, ao sol poente,
  As asas de uma pomba que tem sono...

  O que h depois? Depois?... O azul dos cus?
  Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
  Um abismo? Um castigo? Uma guarida?

  Que importa? Que te importa,  moribundo?
  --Seja o que fr, ser melhor que o mundo!
  Tudo ser melhor do que esta vida!...




EU


  At agora eu no me conhecia.
  Julgava que era Eu e eu no era
  Aquela que em meus versos descrevera
  To clara como a fonte e como o dia.

  Mas que eu no era Eu no o sabia
  E, mesmo que o soubesse, o no dissera...
  Olhos fitos em rtila quimera
  Andava atrs de mim... e no me via!

  Andava a procurar-me--pobre louca!--
  E achei o meu olhar no teu olhar,
  E a minha bca sbre a tua bca!

  E esta nsia de viver, que nada acalma,
   a chama da tua alma a esbrasear
  As apagadas cinzas da minha alma!




PASSEIO AO CAMPO


  Meu amor! Meu Amante! Meu amigo!
  Colhe a hora que passa, hora divina,
  Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
  Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

  Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...
  Pele Doirada de alabastro antigo...
  Frgeis mos de madona florentina...
  --Vamos correr e rir por entre o trigo!--

  H rendas de gramneas pelos montes...
  Papoilas rubras nos trigais maduros...
  gua azulada a cintilar nas fontes...

  E  volta, Amor... tornemos, nas Alfombras
  Dos caminhos selvagens e escuros,
  Num astro s as nossas duas sombras!...




TARDE NO MAR


  A tarde  de oiro rtilo: esbraseia
  O horizonte: um cacto purpurino.
  E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
  Com uma frgil graa de menino,

  Poisa o manto de arminho na areia
  E l vai, e l segue o seu destino!
  E o sol, nas casas brancas que incendeia,
  Desenha mos sangrentas de assassino!

  Que linda tarde aberta sbre o mar!
  Vai deitando do cu molhos de rosas
  Que Apolo se entretem a desfolhar...

  E, sbre mim, em gestos palpitantes,
  As tuas mos morenas, milagrosas,
  So as asas do sol, agonizantes...




SE TU VIESSES VER-ME...


  Se tu viesses ver-me hoje  tardinha,
  A essa hora dos mgicos cansaos,
  Quando a noite de manso se avizinha,
  E me prendesses tda nos teus braos...

  Quando me lembra: sse sabor que tinha
  A tua bca... o eco dos teus passos...
  O teu riso de fonte... os teus abraos...
  Os teus beijos... a tua mo na minha...

  Se tu viesses quando, linda e louca,
  Traa as linhas dulcssimas dum beijo
  E  de sda vermelha e canta e ri

  E  como um cravo ao sol a minha bca...
  Quando os olhos se me cerram de desejo...
  E os meus braos se estendem para ti...




MISTRIO


  Gosto de ti,  chuva, nos beirados,
  Dizendo coisas que ningum entende!
  Da tua cantilena se desprende
  Um sonho de magia e de pecados,

  Dos teus plidos dedos delicados
  Uma alada cano palpita e ascende,
  Frases que a nossa bca no aprende,
  Murmrios por caminhos desolados.

  Pelo meu rosto branco, sempre frio,
  Fazes passar o lgubre arrepio
  Das sensaes estranhas, dolorosas...

  Talvez um dia entenda o teu mistrio...
  Quando, inerte, na paz do cemitrio,
  O meu corpo matar a fome s rosas!




O MEU CONDO


  Quis Deus dar-me o condo de ser sensvel
  Como o diamante  luz que o alumia,
  Dar-me uma alma fantstica, impossvel:
  --Um bailado de cr e fantasia!

  Quis Deus fazer de ti a ambrosia
  Desta paixo estranha, ardente, incrvel!
  Erguer em mim o facho inextinguvel,
  Como um cinzel vincando uma agonia!

  Quis Deus fazer-me tua... para nada!
  --Vos, os meus braos de crucificada,
  Inteis, sses beijos que te dei!

  Anda! Caminha! Aonde?... Mas por onde?
  Se a um gesto dos teus a sombra esconde
  O Caminho de estrlas que tracei...




AS MINHAS MOS


  As minhas mos magritas, afiladas,
  To brancas como a gua da nascente,
  Lembram plidas rosas entornadas
  Dum regao de Infanta do Oriente.

  Mos de ninfa, de fada, de vivente,
  Pobrezinhas em sdas enroladas,
  Virgens mortas em luz amortalhadas
  Pelas prprias mos de oiro do sol-poente.

  Magras e brancas... Foram assim feitas...
  Mos de enjeitada porque tu me enjeitas...
  To doces que elas so! To a meu gsto!

  P'ra que as quero eu--Deus!--P'ra que as quero eu?!
   minhas mos, aonde est o cu?
  ...Aonde esto as linhas do teu rosto?




NOITINHA


  A noite sbre ns se debruou...
  Minha alma ajoelha, pe as mos e ora!
  O luar, pelas colinas, nesta hora,
   a gua dum gomil que se entornou...

  No sei quem tanta prola espalhou!
  Murmura algum pelas quebradas fora...
  Flores do campo, humildes, mesmo agora,
  A noite, os olhos brandos, lhes fechou...

  Fumo beijando o colmo dos casais...
  Serenidade idlica de fontes,
  E a voz dos rouxinis nos salgueirais...

  Tranqilidade... calma... anoitecer...
  Num xtase, eu escuto pelos montes
  O corao das pedras a bater...




LEMBRANA


  Fui Essa que nas ruas esmolou
  E fui a que habitou Paos Reais;
  No mrmore de curvas ogivais
  Fui Essa que as mos plidas poisou...

  Tanto poeta em versos me cantou!
  Fiei o linho  porta dos casais...
  Fui descobrir a ndia e nunca mais
  Voltei! fui essa nau que no voltou...

  Tenho o perfil moreno, lusitano,
  E os olhos verdes, cr do verde Oceano,
  Sereia que nasceu de navegantes...

  Tudo em cinzentas brumas se dilui...
  Ah, quem me dera ser Essas que eu fui,
  As que me lembro de ter sido... dantes!...




A NOSSA CASA


  A nossa casa, Amor, a nossa casa!
  Onde est ela, Amor, que no a vejo?
  Na minha doida fantasia em brasa
  Constri-a num instante, o meu desejo!

  Onde est ela, Amor, a nossa casa,
  O bem que neste mundo mais invejo?
  O brando ninho aonde o nosso beijo
  Ser mais puro e doce que uma asa?

  Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
  Andamos de mos dadas, nos caminhos
  Duma terra de rosas, num jardim,

  Num pas de iluso que nunca vi...
  E que eu moro--to bom,--dentro de ti
  E tu,  meu Amor, dentro de mim...




MENDIGA


  Na vida nada tenho e nada sou;
  Eu ando a mendigar pelas estradas...
  No silncio das noites estreladas
  Caminho, sem saber para onde vou!

  Tinha o manto do sol... quem m'o roubou?!
  Quem pisou minhas rosas desfolhadas?!
  Quem foi que sbre as ondas revoltadas
  A minha taa de oiro espedaou?!

  Agora vou andando e mendigando,
  Sem que um olhar dos mundos infinitos
  Veja passar o verme, rastejando...

  Ah, quem me dera ser como os chacais
  Uivando os brados, rouquejando os gritos
  Na solido dos ermos matagais!...




SUPREMO ENLEIO


  Quanta mulher no teu passado, quanta!
  Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
  Se delas veio o sonho que conforta,
  A sua vinda foi trs vezes santa!

  Erva do cho que a mo de Deus levanta,
  Flhas murchas de rojo  tua porta...
  Quando eu fr uma pobre coisa morta,
  Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

  Mas eu sou a manh: apago estrlas!
  Hs de ver-me, beijar-me em tdas elas,
  Mesmo na bca da que fr mais linda!

  E quando a derradeira, emfim, vier,
  Nesse corpo vibrante de mulher
  Ser o meu que hs de encontrar ainda...




TOLEDO


  Diludo numa taa de oiro a arder
  Toledo  um rubi. E hoje  s nosso!
  O sol a rir... Viv'alma... No esboo
  Um gesto que me no sinta esvaecer...

  As tuas mos tateiam-me a tremer...
  Meu corpo de mbar, harmonioso e moo
   como um jasmineiro em alvoroo
  brio de sol, de aroma, de prazer!

  Cerro um pouco o olhar onde subsiste
  Um romntico aplo vago e mudo,
  --Um grande amor  sempre grave e triste.

  Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo...
  Uma trre ergue ao cu um grito agudo...
  Tua bca desfolha-me num beijo...




OUTONAL


  Caem as flhas mortas sbre o lago:
  Na penumbra outonal, no sei quem tece
  As rendas do silncio... Olha, anoitece!
  --Brumas longnquas do Pas do Vago...

  Veludos a ondear... Mistrio mago...
  Encantamento... A hora que no esquece,
  A luz que a pouco e pouco desfalece,
  Que lana em mim a bno dum afago...

  Outono dos crepsculos doirados,
  De prpuras, damascos e brocados!
  --Vestes a terra inteira de esplendor!

  Outono das tardinhas silenciosas,
  Das magnficas noites voluptuosas
  Em que eu soluo a delirar de amor...




SER POETA


  Ser poeta  ser mais alto,  ser maior
  Do que os homens! Morder como quem beija!
   ser mendigo e dar como quem seja
  Rei do Reino de Aqum e de Alm Dor!

   ter de mil desejos o esplendor
  E no saber sequer que se deseja!
   ter c dentro um astro que flameja,
   ter garras e asas de condor!

   ter fome,  ter sde de Infinito!
  Por elmo, as manhs de oiro e de setim...
   condensar o mundo num s grito!

  E  amar-te, assim, perdidamente...
   seres alma e sangue e vida em mim
  E diz-lo cantando a tda gente!




ALVORECER


  A noite empalidece.   Alvorecer...
  Ouve-se mais o gargalhar da fonte...
  Sbre a cidade muda, o horizonte
   uma orqudea estranha a florescer.

  H andorinhas prontas a dizer
  A missa d'alva, mal o sol desponte.
  Gritos de galos soam monte em monte
  Numa intensa alegria de viver.

  Passos ao longe... um vulto que se esvai...
  Em cada sombra Colombina trai...
  Anda o silncio em volta a qu'rer falar...

  E o luar que desmaia, macerado,
  Lembra, plido, tonto, esfarrapado,
  Um Pierrot, todo branco, a soluar...




MOCIDADE


  A mocidade esplndida, vibrante,
  Ardente, extraordinria, audaciosa,
  Que v num cardo a flha duma rosa,
  Na gota de gua o brilho dum diamante:

  Essa que fz de mim Judeu Errante
  Do esprito, a torrente caudalosa,
  Dos vendavais irm tempestuosa,
  --Trago-a em mim vermelha, triunfante!

  No meu sangue rubis correm dispersos:
  --Chamas subindo ao alto nos meus versos,
  Papoilas nos meus lbios a florir!

  Ama-me doida, estonteadoramente,
   meu Amor! que o corao da gente
   to pequeno... e a vida, gua a fugir...




AMAR!


  Eu quero amar, amar perdidamente!
  Amar s por amar: Aqui... alm...
  Mais ste e Aqule, o Outro e tda a gente...
  Amar! Amar! E no amar ningum!

  Recordar? Esquecer? Indiferente!...
  Prender ou desprender?  mal?  bem?
  Quem disser que se pode amar algum
  Durante a vida inteira  porque mente!

  H uma primavera em cada vida:
   preciso cant-la assim florida,
  Pois se Deus nos deu voz, foi p'ra cantar!

  E se um dia hei de ser p, cinza e nada
  Que seja a minha noite uma alvorada,
  Que me saiba perder... p'ra me encontrar...




NOSTALGIA


  Nesse Pas de lenda, que me encanta,
  Ficaram meus brocados, que despi,
  E as jias que p'las aias reparti
  Como outras rosas da Ranha Santa!

  Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
  Foi por l que as semeei e que as perdi...
  Mostrem-me sse Pas onde eu nasci!
  Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

   meu Pas de sonho e de ansiedade,
  No sei se esta quimera que me assombra,
   feita de mentira ou de verdade!

  Quero voltar! No sei por onde vim...
  Ah! No ser mais que a sombra duma sombra
  Por entre tanta sombra igual a mim!




AMBICIOSA


  Para aqules fantasmas que passaram,
  Vagabundos a quem jurei amar,
  Nunca os meus braos lnguidos traaram
  O vo dum gesto para os alcanar...

  Se as minhas mos em garra se cravaram
  Sbre um amor em sangue a palpitar...
  --Quantas panteras brbaras mataram
  S pelo raro gsto de matar!

  Minha alma  como a pedra funerria
  Erguida na montanha solitria
  Interrogando a vibrao dos cus!

  O amor dum homem?--Terra to pisada
  Gota de chuva ao vento baloiada...
  Um homem?--Quando eu sonho o amor dum Deus!...




CRUCIFICADA


  Amiga... noiva... irm... o que quiseres!
  Por ti, todos os cus tero estrlas,
  Por teu amor, mendiga, hei de merec-las
  Ao beijar a esmola que me deres.

  Podes amar at outras mulheres!
  --Hei de compor, sonhar palavras belas,
  Lindos versos de dor s para elas,
  Para em lnguidas noites lhes dizeres!

  Crucificada em mim, sbre os meus braos,
  Hei de poisar a bca nos teus passos
  P'ra no serem pisados por ningum.

  E depois... Ah! Depois de dores tamanhas
  Nascers outra vez de outras entranhas,
  Nascers outra vez de uma outra Me!




ESPERA...


  No me digas adeus,  sombra amiga,
  Abranda mais o ritmo dos teus passos:
  Sente o perfume da paixo antiga,
  Dos nossos bons e cndidos abraos.

  Sou a dona dos msticos cansaos,
  A fantstica e estranha rapariga
  Que um dia ficou presa nos teus braos...
  No vs ainda embora,  sombra amiga!

  Teu amor fz de mim um lago triste:
  Quantas ondas a rir que no lhe ouviste,
  Quanta cano de ondinas l no fundo!

  Espera... espera...  minha sombra amada...
  V que p'ra alm de mim j no h nada
  E nunca mais me encontras neste mundo!...




INTERROGAO


  Neste tormento intil, neste empenho
  De tornar em silncio o que em mim canta,
  Sobem-me roucos brados  garganta
  Num clamor de loucura que contenho.

   alma da charneca sacrosanta,
  Irm da alma rtila que eu tenho,
  Dize para onde vou, donde  que venho
  Nesta dor que me exalta e me alevanta!

  Vises de mundos novos, de infinitos,
  Cadncias de soluos e de gritos,
  Fogueira a esbrasear que me consome!

  Dize que mo  esta que me arrasta?
  Ndoa de sangue que palpita e alastra...
  Dize de que  que eu tenho sde e fome?!




VOLPIA


  No divino impudor da mocidade,
  Nesse xtase pago que vence a sorte,
  Num frmito vibrante de ansiedade,
  Dou-te o meu corpo prometido  morte!

  A sombra entre a mentira e a verdade...
  A nuvem que arrastou o vento norte...
  --Meu corpo! Trago nle um vinho forte:
  Meus beijos de volpia e de maldade!

  Trago dlias vermelhas no regao...
  So os dedos do sol quando te abrao,
  Cravados no teu peito como lanas!

  E do meu corpo os leves arabescos
  Vo-te envolvendo em crculos dantescos
  Felinamente, em voluptuosas danas...




FILTRO


  Meu amor, no  nada:--Sons marinhos
  Numa concha vasia, chro errante...
  Ah, olhos que no choram! Pobrezinhos...
  No h luz neste mundo que os levante!

  Eu andarei por ti os maus caminhos
  E as minhas mos, abertas a diamante,
  Ho de crucificar-se nos espinhos
  Quando o meu peito fr o teu mirante!

  Para que corpos vis te no desejem,
  Hei de dar-te o meu corpo, e a bca minha
  P'ra que bcas impuras te no beijem!

  Como quem roa um lago que sonhou,
  Minhas cansadas asas de andorinha
  Ho de prender-te todo num s vo...




MAIS ALTO


  Mais alto, sim! mais alto, mais alm
  Do sonho, onde morar a dor da vida,
  At sair de mim! Ser a Perdida,
  A que se no encontra! Aquela a quem

  O mundo no conhece por Algum!
  Ser orgulho, ser guia na subida,
  At chegar a ser, entontecida,
  Aquela que sonhou o meu desdm!

  Mais alto, sim! Mais alto! A intangvel!
  Turris Ebrnea erguida nos espaos,
   rutilante luz dum impossvel!

  Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
  O mal da vida dentro dos meus braos,
  Dos meus divinos braos de Mulher!




NERVOS DE OIRO


  Meus nervos, guisos de oiro a tilintar
  Cantam-me n'alma a estranha sinfonia
  Da volpia, da mgoa e da alegria,
  Que me faz rir e que me faz chorar!

  Em meu corpo fremente sem cessar,
  Agito os guisos de oiro da folia!
  A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
  Num rubro turbilho sinto-As passar!

  O corao, numa imperial oferta,
  Ergo-o ao alto! E, sbre a minha mo,
   uma rosa de prpura entreaberta!

  E em mim, dentro de mim, vibram dispersos,
  Meus nervos de oiro, esplndidos, que so
  Tda a Arte suprema dos meus versos!




A VOZ DA TLIA


  Diz-me a tlia a cantar: Eu sou sincera,
  Eu sou isto que vs: o sonho, a graa.
  Deu ao meu corpo, o vento, quando passa,
  ste ar escultural de bayadera...

  E de manh o sol  uma cratera,
  Uma serpente de oiro que me enlaa...
  Trago nas mos as mos da primavera...
  E  para mim que em noites de desgraa

  Toca o vento Mozart, triste e solene,
  E  minha alma vibrante, posta a nu,
  Diz a chuva sonetos de Verlaine...

  E, ao ver-me triste, a tlia murmurou:
  J fui um dia poeta como tu...
  Ainda hs de ser tlia como eu sou...




NO SER


  Quem me dera voltar  inocncia
  Das coisas brutas, ss, inanimadas,
  Despir o vo orgulho, a incoerncia:
  --Mantos rtos de esttuas mutiladas!

  Ah! Arrancar s carnes laceradas
  Seu msero segrdo de conscincia!
  Ah! poder ser apenas florescncia
  De astros em puras noites deslumbradas!

  Ser nostlgico choupo ao entardecer,
  De ramos graves, plcidos, absortos
  Na mgica tarefa de viver!

  Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
  Erguer ao sol o corao dos mortos
  Na urna de oiro duma flor aberta...




?


  Quem fz ao sapo o leito carmesim
  De rosas desfolhadas  noitinha?
  E quem vestiu de monja a andorinha,
  E perfumou as sombras do jardim?

  Quem cinzelou estrlas no jasmim?
  Quem deu sses cabelos de ranha
  Ao girassol? Quem fz o mar? E a minha
  Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

  Quem fz os homens e deu vida aos lobos?
  Santa Teresa em msticos arroubos?
  Os monstros? E os profetas? E o luar?

  Quem nos deu asas para andar de-rastros?
  Quem nos deu olhos para ver os astros
  --Sem nos dar braos para os alcanar?




IN MEMORIAM

                              Ao meu morto querido.


  Na cidade de Assis, Il Poverello
  Santo, trs vezes santo, andou prgando
  Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
  Da pobreza o tristssimo flagelo,

  Tudo quanto h de vil, quanto h de belo,
  Tudo era nosso irmo!--E assim sonhando,
  Pelas estradas da Umbria foi forjando
  Da cadeia do amor o maior elo!

  Olha o nosso irmo Sol, nossa irm gua...
  Ah, Poverello! Em mim, essa lio
  Perdeu-se como vela em mar de mgoa

  Batida por furiosos vendavais!
  --Eu fui na vida a irm dum s irmo,
  E j no sou a irm de ningum mais!




RVORES DO ALENTEJO

                              Ao prof. Guido Battelli.


  Horas mortas... Curvada aos ps do Monte
  A plancie  um brasido... e, torturadas,
  As rvores sangrentas, revoltadas,
  Gritam a Deus a bno duma fonte!

  E quando, manh alta, o sol posponte
  A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
  Esfngicas, recortam desgrenhadas
  Os trgicos perfis no horizonte!

  rvores! Coraes, almas que choram
  Almas iguais  minha, almas que imploram
  Em vo remdio para tanta mgoa!

  rvores! No choreis! Olhai e vde:
  --Tambm ando a gritar, morta de sde,
  Pedindo a Deus a minha gota de gua!




QUEM SABE?...

                              Ao Angelo.


  Queria tanto saber porque sou Eu!
  Quem me enjeitou neste caminho escuro?
  Queria tanto saber porque seguro
  Nas minhas mos o bem que no  meu!

  Quem me dir se, l no alto, o cu
  Tambm  para o mau, para o perjuro?
  Para onde vai a alma que morreu?
  Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!

  A estrada de Damasco, o meu caminho,
  O meu bordo de estrlas de cguinho,
  gua da fonte de que estou sedenta!

  Quem sabe se ste anseio de Eternidade,
  A tropear na sombra,  a verdade,
   j a mo de Deus que me acalenta?




A MINHA PIEDADE

                              A Bourbon e Menezes.


  Tenho pena de tudo quanto lida
  Neste mundo, de tudo quanto sente,
  Daquele a quem mentiram, de quem mente,
  Dos que andam ps descalos pela vida,

  Da rocha altiva, sbre o monte erguida,
  Olhando os cus ignotos frente a frente,
  Dos que no so iguais  outra gente,
  E dos que se ensangentam na subida!

  Tenho pena de mim... pena de ti...
  De no beijar o riso duma estrla...
  Pena dessa m hora em que nasci...

  De no ter asas para ir ver o cu...
  De no ser Esta... a Outra... e mais Aquela...
  De ter vivido e no ter sido Eu...




SOU EU!

                              A Laura Chaves.


  Pelos campos em fora, pelos combros,
  Pelos montes que embalam a manh,
  Largo os meus rubros sonhos de pag,
  Emquanto as aves poisam nos meus ombros...

  Em vo me sepultaram entre escombros
  De catedrais duma escultura v!
  Olha-me o loiro sol tonto de assombros,
  E as nuvens, a chorar, chamam-me irm!

  Ecos longnquos de ondas... de universos...
  Ecos dum mundo... dum distante Alm,
  Donde eu trouxe a magia dos meus versos!

  Sou eu! Sou eu! A que nas mos ansiosas
  Prendeu da vida, assim como ningum,
  Os maus espinhos sem tocar nas rosas!




PANTESMO

                              Ao Boto de Carvalho.


  Tarde de brasa a arder, sol de vero
  Cingindo, voluptuoso, o horizonte...
  Sinto-me luz e cr, ritmo e claro
  Dum verso triunfal de Anacreonte!

  Vejo-me asa no ar, erva no cho,
  Oio-me gota de gua a rir, na fonte,
  E a curva altiva e dura do Maro
   o meu corpo transformado em monte!

  E de bruos na terra penso e cismo
  Que, neste meu ardente pantesmo,
  Nos meus sentidos postos e absortos,

  Nas coisas luminosas dste mundo,
  A minha Alma  o tmulo profundo
  Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos!




POBRE DE CRISTO

                              A Jos Emdio Amaro.


   minha terra na plancie rasa,
  Branca de sol e cal e de luar,
  Minha Terra que nunca viste o mar,
  Onde tenho o meu po e a minha casa,

  Minha terra de tardes sem uma asa,
  Sem um bater de flha... a dormitar...
  Meu anel de rubis a flamejar,
  Minha terra moirisca a arder em brasa!

  Minha terra aonde meu irmo nasceu,
  Aonde a me que eu tive e que morreu
  Foi moa e loira, amou e foi amada!

  Truz... Truz... Truz...--Eu no tenho aonde me acoite,
  Sou um pobre de longe,  qusi noite,
  Terra, quero dormir, d-me pousada!...




A UMA RAPARIGA

                              A Nice.


  Abre os olhos e encara a vida! A sina
  Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
  Por sbre lamaais alteia pontes
  Com tuas mos preciosas de menina.

  Nessa estrada da vida que fascina
  Caminha sempre em frente, alm dos montes!
  Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
  Beija aqules que a sorte te destina!

  Trata por tu a mais longnqua estrla,
  Escava com as mos a prpria cova
  E depois, a sorrir, deita-te nela!

  Que as mos da terra faam, com amor,
  Da graa do teu corpo, esguia e nova,
  Surgir  luz a haste duma flor!...




MINHA CULPA

                              A Artur Ledesma.


  Sei l! Sei l! Eu sei l bem
  Quem sou? Um fogo-ftuo, uma miragem...
  Sou um reflexo... um canto de pasagem
  Ou apenas cenrio! Um vai vm.

  Como a sorte: hoje aqui, depois alm!
  Sei l quem sou? Sei l! Sou a roupagem
  Dum doido que partiu numa romagem
  E nunca mais voltou! Eu sei l quem!...

  Sou um verme que um dia quis ser astro...
  Uma esttua truncada de alabastro...
  Uma chaga sangrenta do Senhor...

  Sei l quem sou?! Sei l! Cumprindo os fados,
  Num mundo de maldades e pecados,
  Sou mais um mau, sou mais um pecador...




TEUS OLHOS


  Olhos do meu Amor! Infantes loiros
  Que trazem os meus presos, endoidados!
  Nles deixei, um dia, os meus tesoiros:
  Meus anis, minhas rendas, meus brocados.

  Nles ficaram meus palcios moiros,
  Meus carros de combate, destroados,
  Os meus diamantes, todos os meus oiros
  Que trouxe d'Alm-Mundos ignorados!

  Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas...
  Enigmticas campas medievais...
  Jardins de Espanha... catedrais eternas...

  Bero vindo do cu  minha porta...
   meu leito de npcias irreais!...
  Meu sumptuoso tmulo de morta!...




  _He hum no querer mais que bem querer._

                                        CAMES.


I

  Gosto de ti apaixonadamente,
  De ti que s a vitria, a salvao,
  De ti que me trouxeste pela mo
  At ao brilho desta chama quente.

  A tua linda voz de gua corrente
  Ensinou-me a cantar... e essa cano
  Foi ritmo nos meus versos de paixo,
  Foi graa no meu peito de descrente.

  Bordo a amparar minha cegueira,
  Da noite negra o mgico farol,
  Cravos rubros a arder numa fogueira!

  E eu, que era neste mundo uma vencida,
  Ergo a cabea ao alto, encaro o sol!
  --guia real, apontas-me a subida!


II

  Meu amor, meu amado, v... repara:
  Poisa os teus lindos olhos de oiro em mim,
  --Dos meus beijos de amor Deus fz-me avara
  Para nunca os contares at ao fim.

  Meus olhos tm tons de pedra rara,
  -- s para teu bem que os tenho assim--
  E as minhas mos so fontes de gua clara
  A cantar sbre a sde dum jardim.

  Sou triste como a flha ao abandno
  Num parque solitrio, pelo Outono,
  Sbre um lago onde vogam nenfares...

  Deus fz-me atravessar o teu caminho...
  --Que contas ds a Deus indo szinho,
  Passando junto a mim, sem me encontrares?--


III

  Frmito do meu corpo a procurar-te,
  Febre das minhas mos na tua pele
  Que cheira a mbar, a baunilha e a mel,
  Doido anseio dos meus braos a abraar-te,

  Olhos buscando os teus por tda a parte,
  Sde de beijos, amargor de fel,
  Estonteante fome, spera e cruel,
  Que nada existe que a mitigue e a farte!

  E vejo-te to longe! Sinto a tua alma
  Junto da minha, uma lagoa calma,
  A dizer-me, a cantar que me no amas...

  E o meu corao que tu no sentes,
  Vai boiando ao acaso das correntes,
  Esquife negro sbre um mar de chamas...


IV

  s tu! s tu! Sempre vieste, emfim!
  Oio de novo o riso dos teus passos!
  s tu que eu vejo a estender-me os braos
  Que Deus criou p'ra me abraar a mim!

  Tudo  divino e santo visto assim...
  Foram-se os desalentos, os cansaos...
  O mundo no  mundo:  um jardim!
  Um cu aberto: longes, os espaos!

  Prende-me tda, Amor, prende-me bem!
  Que vs tu em redor? No h ningum!
  A terra?--Um astro morto que flutua...

  Tudo o que  chama a arder, tudo o que sente,
  Tudo o que  vida e vibra eternamente
   tu seres meu, Amor, e eu ser tua!


V

  Dize-me, amor, como te sou querida,
  Conta-me a glria do teu sonho eleito,
  Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
  Arranca-me dos pntanos da vida.

  Embriagada numa estranha lida,
  Trago nas mos o corao desfeito.
  Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
  Que me salve e levante redimida!

  Nesta negra cisterna em que me afundo,
  Sem quimeras, sem crenas, sem ternura,
  Agonia sem f dum moribundo,

  Grito o teu nome numa sde estranha,
  Como se fsse, Amor, tda a frescura
  Das cristalinas guas da montanha!


VI

  Falo de ti s pedras das estradas,
  E ao sol que  loiro como o teu olhar,
  Falo ao rio, que desdobra a fascar,
  Vestidos de Princesas e de Fadas;

  Falo s gaivotas de asas desdobradas,
  Lembrando lenos brancos a acenar.
  E aos mastros que apunhalam o luar
  Na solido das noites consteladas;

  Digo os anseios, os sonhos, os desejos
  Donde a tua alma, tonta de vitria,
  Levanta ao cu a trre dos meus beijos!

  E os meus gritos de amor, cruzando o espao,
  Sbre os brocados flgidos da glria,
  So astros que me tombam do regao!


VII

  So mortos os que nunca acreditaram
  Que esta vida  smente uma passagem
  Um atalho sombrio, uma pasagem
  Onde os nossos sentidos se poisaram.

  So mortos os que nunca alevantaram
  Dentre escombros a Trre de Menagem
  Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
  E os que no riram e os que no choraram.

  Que Deus faa de mim, quando eu morrer,
  Quando eu partir para o Pas da Luz,
  A sombra calma dum entardecer--,

  Tombando, em doces pregas de mortalha,
  Sbre o teu corpo herico, psto em cruz
  Na solido dum campo de batalha!


VIII

  Abrir os olhos, procurar a luz,
  De corao erguido ao alto, em chama,
  Que tudo neste mundo se reduz
  A ver os astros cintilar na lama!

  Amar o sol da glria e a voz da fama
  Que em clamorosos gritos se traduz!
  Com misericrdia, amar quem nos no ama,
  E deixar que nos preguem numa cruz!

  Sbre um sonho desfeito erguer a trre
  Doutro sonho mais alto e, se sse morre
  Mais outro e outro ainda, tda a vida!

  Que importa que nos venam desenganos,
  Se pudermos contar os nossos anos
  Assim como degraus duma subida?


IX

  Perdi os meus fantsticos castelos
  Como nvoa distante que se esfuma...
  Quis vencer, quis lutar, quis defend-los:
  Quebrei as minhas lanas uma a uma!

  Perdi minhas galeras entre os glos
  Que se afundaram sbre um mar de bruma...
  --Tantos escolhos! Quem podia v-los?--
  Deitei-me ao mar e no salvei nenhuma!

  Perdi a minha taa, o meu anel,
  A minha cota de ao, o meu corcel,
  Perdi meu elmo de oiro e pedrarias...

  Sobem-me aos lbios splicas estranhas...
  Sbre o meu corao pesam montanhas...
  Olho assombrada as minhas mos vazias...


X

  Eu queria mais altas as estrlas,
  Mais largo o espao, o sol mais criador,
  Mais refulgente a lua, o mar maior,
  Mais cavadas as ondas e mais belas;

  Mais amplas, mais rasgadas as janelas
  Das almas, mais rosais a abrir em flor,
  Mais montanhas, mais asas de condor,
  Mais sangue sbre a cruz das caravelas!

  E abrir os braos e viver a vida,
  --Quanto mais funda e lgubre a descida
  Mais alta  a ladeira que no cansa!

  E, acabada a tarefa... em paz, contente,
  Um dia adormecer, serenamente,
  Como dorme no bero uma criana!

Outubro, 1930.




       *       *       *       *       *




RELIQUI


    VERSOS PSTUMOS PUBLICADOS PELA PRIMEIRA VEZ COM A 2. EDIO DA
    CHARNECA EM FLOR, EM 1931.




VORA

    Ao Amigo Vindo da luminosa Itlia, a minha cidade, como eu soturna e
    triste...


  vora! Ruas ermas sob os cus
  Cr de violetas roxas... Ruas frades
  Pedindo em triste penitncia a Deus
  Que nos perde as mseras vaidades!

  Tenho corrido em vo tantas cidades!
  E s aqui recordo os beijos teus,
  E s aqui eu sinto que so meus
  Os sonhos que sonhei noutras idades!

  vora!... O teu olhar... o teu perfil...
  Tua bca sinuosa, um ms de Abril,
  Que o corao no peito me alvoroa!

  ...Em cada viela o vulto dum fantasma...
  E a minh'alma soturna escuta e pasma...
  E sente-se passar _menina-e-moa_...




 JANELA DE GARCIA DE REZENDE


  Janela antiga sbre a rua plana...
  Ilumina-a o luar com seu claro...
  Dantes, a descansar de luta insana,
  Fui, talvez, flor no potico balco...

  Dantes! Da minha glria altiva e ufana,
  Talvez... Quem sabe?... Tonto de iluso,
  Meu rude corao de alentejana
  Me palpitasse ao luar nesse balco...

  Mstica dona, em outras primaveras,
  Em refulgentes horas de outras eras,
  Vi passar o cortejo ao sol doirado...

  Bandeiras! Pagens! O pendo real!
  E na tua mo, vermelha, triunfal,
  Minha divisa: um corao chagado!...




O MEU IMPOSSVEL


  Minh'alma ardente  uma fogueira acesa,
   um brasido enorme a crepitar!
  Ansia de procurar sem encontrar
  A chama onde queimar uma incerteza!

  Tudo  vago e incompleto! E o que mais pesa
   nada ser perfeito.  deslumbrar
  A noite tormentosa at cegar,
  E tudo ser em vo! Deus, que tristeza!...

  Aos meus irmos na dor j disse tudo
  E no me compreenderam!... Vo e mudo
  Foi tudo o que entendi e o que pressinto...

  Mas se eu pudesse, a mgoa que em mim chora,
  Contar, no a chorava como agora,
  Irmos, no a sentia como a sinto!...




EM VO


  Passo triste na vida e triste sou
  Um pobre a quem jamais quiseram bem!
  Um caminhante exausto que passou,
  Que no diz onde vai nem donde vem.

  Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdm
  A flor da minha bca desdenhou!
  Solitrio convento onde ningum
  A silenciosa cela procurou!

  E eu quero bem a tudo, a tda a gente!...
  Ando a amar assim, perdidamente,
  A acalentar o mundo nos meus braos!

  E tem passado, em vo, a mocidade
  Sem que no meu caminho uma sadade
  Abra em flores a sombra dos meus passos!




VOZ QUE SE CALA


  Amo as pedras, os astros e o luar
  Que beija as ervas do atalho escuro,
  Amo as guas de anil e o doce olhar
  Dos animais, divinamente puro.

  Amo a hera que entende a voz do muro,
  E dos sapos, o brando tilintar
  De cristais que se afagam devagar,
  E da minha charneca o rosto duro.

  Amo todos os sonhos que se calam
  De coraes que sentem e no falam,
  Tudo o que  Infinito e pequenino!

  Asa que nos protege a todos ns!
  Soluo imenso, eterno, que  a voz
  Do nosso grande e msero Destino!...




PARA QU?

    Ao vlho amigo Joo.


  Para qu ser o musgo do rochedo
  Ou urze atormentada da montanha?
  Se a arranca a ansiedade e o mdo
  E ste enleio e esta angstia estranha

  E todo ste feitio e ste enrdo
  Do nosso prprio peito? E  tamanha
  E to profunda a gente que o segrdo
  Da vida como um grande mar nos banha?

  P'ra que ser asa quando a gente voa
  De que serve ser cntico se entoa
  Tda a cano de amor do Universo?

  Para qu ser altura e ansiedade,
  Se se pode gritar uma Verdade
  Ao mudo vo nas slabas dum verso?




SONHO VAGO


  Um sonho alado que nasceu um instante,
  Erguido ao alto em horas de demncia...
  Gotas de gua que tombam em cadncia
  Na minh'alma tristssima, distante...

  Onde est le o Desejado? O Infante?
  O que h de vir e amar-me em doida ardncia?
  O das horas de mgoa e penitncia?
  O Prncipe Encantado? O eleito? O Amante?

  E neste sonho eu j nem sei quem sou...
  O brando marulhar dum longo beijo
  Que no chegou a dar-se e que passou...

  Um fogo-ftuo rtilo, talvez...
  E eu ando a procurar-te e j te vejo!...
  E tu j me encontraste e no me vs!...




PRIMAVERA


   primavera agora, meu Amor!
  O campo despe a veste de estamenha;
  No h rvore nenhuma que no tenha
  O corao aberto, todo em flor!

  Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
  Da vida... no h bem que nos no venha
  Dum mal que o nosso orgulho em vo desdenha!
  No h bem que no possa ser melhor!

  Tambm despi meu triste burel pardo,
  E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
  E ando agora tonta,  tua espera...

  Pus rosas cr de rosa em meus cabelos...
  Parecem um rosal! Vem desprend-los!
  Meu Amor, meu Amor,  Primavera!...




BLASFMIA


  Silncio, meu Amor, no digas nada!
  Cai a noite nos longes donde vim...
  Tda eu sou alma e amor, sou um jardim,
  Um ptio alucinante de Granada!

  Dos meus clios a sombra enluarada,
  Quando os teus olhos descem sbre mim,
  Traa trmulas hastes de jasmim
  Na palidez da face extasiada!

  Sou no teu rosto a luz que o alumia,
  Sou a expresso das tuas mos de raa,
  E os beijos que me ds j foram meus!

  Em ti sou Glria, Altura e Poesia!
  E vejo-me--milagre cheio de graa!--
  Dentro de ti, em ti igual a Deus!...




O TEU OLHAR


  Passam no teu olhar nobres cortejos,
  Frotas, pendes ao vento sobranceiros,
  Lindos versos de antigos romanceiros,
  Cus do Oriente, em brasa, como beijos,

  Mares onde no cabem teus desejos;
  Passam no teu olhar mundos inteiros,
  Todo um povo de heris e marinheiros,
  Lanas nuas em rtilos lampejos;

  Passam lendas e sonhos e milagres!
  Passa a ndia, a viso do Infante em Sagres,
  Em centelhas de crena e de certeza!

  E ao sentir-te to grande, ao ver-te assim,
  Amor, julgo trazer dentro de mim
  Um pedao da terra portuguesa!

Outubro, 1930.




NOITE DE CHUVA


  Chuva... Que gotas grossas!... Vem ouvir:
  Uma... duas... mais outra que desceu...
   Viviana,  Melusina, a rir,
  So rosas brancas dum rosal do cu...

  Os lilazes deixaram-se dormir...
  Nem um frmito... a terra emmudeceu...
  Amor! Vem ver estrlas a cair:
  Uma... duas... mais outra que desceu...

  Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
  Que essa fala de amor seja um gemido,
  Um murmrio, um soluo, um ai desfeito...

  Ah, deixa  noite o seu encanto triste!
  E a mim... o teu amor que mal existe,
  Chuva a cair na noite do meu peito!




TARDE DE MSICA


  S Schumann, meu Amor! Serenidade...
  No assustes os sonhos... Ah, no varras
  As quimeras... Amor, seno esbarras
  Na minha vaga imaterialidade...

  Liszt, agora o brilhante; o piano arde...
  Beijos alados... ecos de fanfarras...
  Ptalas dos teus dedos feitos garras...
  Como cai em p de oiro o ar da tarde!

  Eu olhava para ti...  lindo! Ideal!
  Gemeram nossas vozes confundidas.
  --Havia rosas cr de rosa aos molhos--

  Falavas de Liszt e eu... da musical
  Harmonia das plpebras descidas,
  Do ritmo dos teus clios sbre os olhos...




CHOPIN


  No se acende hoje a luz... Todo o luar
  Fique l fora. Bem Aparecidas
  As estrlas midinhas, dando no ar
  As voltas dum cordo de margaridas!

  Entram falenas meio entontecidas...
  Lusco-fusco... um morcego a palpitar,
  Passa... torna a passar... torna a passar...
  As coisas tem o ar de adormecidas...

  Mansinho... Roa os dedos p'lo teclado,
  No vago arfar que tudo alteia e doira,
  Alma, Sacrrio de Almas, meu Amado!

  E, emquanto o piano a doce queixa exala,
  Divina triste, a grande sombra loira,
  Vem para mim da escurido da sala...




O MEU DESEJO


  Vejo-te s a ti no azul dos cus.
  Olhando a nuvem de oiro que flutua...
   minha perfeio que criou Deus
  E que num dia lindo me fz sua!

  Nos vultos que diviso pela rua,
  Que cruzam os seus passos com os meus...
  Minha bca tem fome s da tua!
  Meus olhos tm sde s dos teus!

  Sombra da tua sombra, doce e calma,
  Sou a grande quimera da tua alma
  E, sem viver, ando a viver contigo...

  Deixa-me andar assim no teu caminho
  Por tda a vida, Amor devagarinho,
  At a morte me levar consigo...




ESCRAVA


   meu Deus,  meu dono,  meu senhor,
  Eu te sado, olhar do meu olhar,
  Fala da minha bca a palpitar,
  Gesto das minhas mos tontas de amor!

  Que te seja propicio o astro e a flor,
  Que a teus ps se incline a terra e o mar,
  P'los sculos dos sculos sem-par,
   meu Deus,  meu dono,  meu senhor!

  Eu, doce e humilde escrava, te sado,
  E, de mos postas, em sentida prece,
  Canto teus olhos de oiro e de veludo.

  Ah, sse verso imenso de ansiedade,
  sse verso de amor que te fizesse
  Ser eterno por tda a Eternidade!...




DIVINO INSTANTE


  Ser uma pobre morta inerte e fria,
  Hiertica, deitada sob a terra,
  Sem saber se no mundo h paz ou guerra,
  Sem ver nascer, sem ver morrer o dia,

  Luz apagada ao alto e que alumia,
  Bca fechada  fala que no erra,
  Urna de bronze que a Verdade encerra,
  Ah! Ser Eu essa morta inerta e fria!

  Ah, fixar o efmero! sse instante
  Em que o teu beijo sfrego de amante
  Queima o meu corpo frgil de mbar loiro;

  Ah, fixar o momento em que, dolente,
  Tuas plpebras descem, lentamente,
  Sbre a vertigem dos teus olhos de oiro!




SILNCIO!...


  No fadrio que  meu, neste penar,
  Noite alta, noite escura, noite morta,
  Sou o vento que geme e quere entrar,
  Sou o vento que vai bater-te  porta...

  Vivo longe de ti, mas que me importa?
  Se eu j no vivo em mim! Ando a vaguear
  Em roda  tua casa, a procurar
  Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

  Estou junto de ti e no me vs...
  Quantas vezes no livro que tu ls
  Meu olhar se poisou e se perdeu!

  Trago-te como um filho nos meus braos!
  E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos...
  Silncio, meu Amor!... Abre! Sou eu!...




O MAIOR BEM


  ste querer-te bem sem me quereres,
  ste sofrer por ti constantemente,
  Andar atrs de ti sem tu me veres
  Faria piedade a tda a gente.

  Mesmo a beijar-me a tua bca mente...
  Quantos sangrentos beijos de mulheres
  Poisa na minha a tua bca ardente,
  E quanto engano nos seus vos dizeres!...

  Mas que me importa a mim que me no queiras,
  Se esta pena, esta dor, estas canseiras,
  ste msero pungir, rduo e profundo

  Do teu frio desamor, dos teus desdens,
  E, na vida, o mais alto dos meus bens?
   tudo quanto eu tenho neste mundo?




OS MEUS VERSOS


  Rasga sses versos que eu te fiz, Amor!
  Deita-os ao nada, ao p, ao esquecimento,
  Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
  Que a tempestade os leve aonde fr!

  Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
  Que volte ao nada o nada dum momento!
  Julguei-me grande pelo sentimento,
  E pelo orgulho ainda sou maior!...

  Tanto verso j disse o que eu sonhei!
  Tantos penaram j o que eu penei!
  Asas que passam, todo o mundo as sente...

  Rasga os meus versos... Pobre endoidecida!
  Como se um grande amor c nesta vida
  No fsse o mesmo amor de tda a gente!...




AMOR QUE MORRE


  O nosso amor morreu... Quem o diria!
  Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
  Cguinho de te ver, sem ver a conta
  Do tempo que passava, que fugia!

  Bem estava a sentir que le morria...
  E outro claro, ao longe, j desponta!
  Um engano que morre... e logo aponta
  A luz doutra miragem fugidia...

  Eu bem sei, meu Amor, que p'ra viver
  So precisos amores, p'ra morrer
  E so precisos sonhos p'ra partir.

  Eu bem sei, meu Amor, que era preciso
  Fazer do amor que parte o claro riso
  Doutro amor impossvel que h de vir!




SBRE A NEVE


  Sbre mim, teu desdm, pesado jaz
  Como um manto de neve... Quem dissera
  Porque tombou em plena primavera
  Tda essa neve que o inverno traz!

  Coroavas-me 'inda h pouco de lils
  E de rosas silvestres... quando eu era
  Aquela que o Destino prometera
  Aos teus rtilos sonhos de rapaz!

  Dos beijos que me deste no te importas,
  Asas paradas de andorinhas mortas...
  Flhas de outono em correria louca...

  Mas 'inda um dia, em mim, brio de cr,
  H de nascer um roseiral em flor
  Ao sol de primavera doutra bca!




EU NO SOU DE NINGUM...


  ........................................
  ........................................
  ........................................
  ........................................

  Eu no sou de ningum!... Quem me quiser
  H de ser luz do sol em tardes quentes;
  Nos olhos de gua clara h de trazer
  As flgidas pupilas dos videntes!

  H de ser seiva no boto repleto,
  Voz no murmrio do pequeno insecto,
  Vento que enfuna as velas sbre os mastros!...

  H de ser Outro e Outro num momento!
  Fra viva, brutal, em movimento,
  Astro arrastando catadupas de astros!




VO ORGULHO


  Neste mundo vaidoso o amor  nada,
   um orgulho a mais, outra vaidade,
  A coroa de loiros desfolhada
  Com que se espera a Imortalidade.

  Ser Beatriz! Natrcia! Irrealidade...
  Mentira... Engano de alma desvairada...
  Onde est dsses braos a verdade,
  Essa fogueira em cinzas apagada?...

  Mentira! No te quis... no me quiseste...
  Eflvios subtis dum bem celeste?
  Gestos... palavras sem nenhum condo...

  Mentira! No fui tua... no! Smente...
  Quis ser mais do que sou, mais do que gente,
  No alto orgulho de o ter sido em vo!...




LTIMO SONHO DE SROR SADADE

    quele que se perdera no caminho...

  Sror Sadade abriu a sua cela...
  E, num encanto que ningum traduz,
  Despiu o manto negro que era dela,
  Seu vestido de noiva de Jesus.

  E a noite escura, extasiada, ao v-la,
  As brancas mos no peito qusi em cruz,
  Teve um brilhar ferico de estrla
  Que se esfolhasse em ptalas de luz!

  Sror Sadade olhou... Que olhar profundo
  Que sonha e espera?... Ah como  feio o mundo,
  E os homens vos!--Ento, devagarinho,

  Sror Sadade entrou no seu convento...
  E, at morrer, rezou, sem um lamento,
  Por _Um_ que se perdera no caminho!...




ESQUECIMENTO


  sse de quem eu era e que era meu,
  Que foi um sonho e foi realidade,
  Que me vestiu a alma de sadade,
  Para sempre de mim desapar'ceu.

  Tudo em redor ento escureceu,
  E foi longnqua tda a claridade!
  Ceguei... tateio sombras... Que ansiedade!
  Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

  Descem em mim poentes de Novembro...
  A sombra dos meus olhos, a escurecer...
  Veste de roxo e negro os crisantemos...

  E dsse que era meu j me no lembro...
  Ah, a doce agonia de esquecer
  A lembrar doidamente o que esquecemos!...




LOUCURA


  Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
  Pavorosa! No sei onde era dantes.
  Meu solar, meus palcios, meus mirantes!
  No sei de nada, Deus, no sei de nada!...

  Passa em tropel febril a cavalgada
  Das paixes e loucuras triunfantes!
  Rasgam-se as sdas, quebram-se os diamantes!
  No tenho nada, Deus, no tenho nada!...

  Pesadelos de insnia, brios de anseio!
  Loucura a esboar-se, a ennegrecer
  Cada vez mais as trevas do meu seio!

   pavoroso mal de ser szinha!
   pavoroso e atroz mal de trazer
  Tantas almas a rir dentro da minha!




DEIXAI ENTRAR A MORTE


  Deixai entrar a Morte, a iluminada,
  A que vem para mim, p'ra me levar.
  Abri tdas as portas par em par
  Como asas a bater em revoada.

  Que sou eu neste mundo? A desherdada,
  A que prendeu nas mos todo o luar,
  A vida inteira, o sonho, a terra, o mar,
  E que, ao abri-las, no encontrou nada!

   Me!  minha Me, p'ra que nasceste?
  Entre agonias e em dores tamanhas
  P'ra que foi, dize l, que me trouxeste

  Dentro de ti?... P'ra que eu tivesse sido
  Smente o fruto amargo das entranhas
  Dum lrio que em m hora foi nascido!...




 MORTE


  Morte, minha Senhora Dona Morte,
  To bom que deve ser o teu abrao!
  Lnguido e doce como um doce lao
  E como uma raiz, sereno e forte.

  No h mal que no sare ou no conforte
  Tua mo que nos guia passo a passo,
  Em ti, dentro de ti, no teu regao
  No h triste destino nem m sorte.

  Dona Morte dos dedos de veludo,
  Fecha-me os olhos que j viram tudo!
  Prende-me as asas que voaram tanto!

  Vim da Moirama, sou filha de rei,
  M fada me encantou e aqui fiquei
   tua espera... quebra-me o encanto!




POBREZINHA


  Nas nossas duas sinas to contrrias
  Um pelo outro somos ignorados:
  Sou filha de regies imaginrias,
  Tu pisas mundos firmes j pisados.

  Trago no olhar vises extraordinrias
  De coisas que abracei de olhos fechados...
  Em mim no trago nada, como os prias...
  S tenho os astros, como os desherdados...

  E das tuas riquezas e de ti
  Nada me deste e eu nada recebi,
  Nem o beijo que passa e que consola.

  E o meu corpo, minh'alma e corao
  Tudo em risos poisei na tua mo!...
  ...Ah, como  bom um pobre dar esmola!...

    ste soneto e os seguintes so publicados pela primeira vez em
    volume.




ROSEIRA BRAVA


  H nos teus olhos de oiro um tal fulgor
  E no teu riso tanta claridade,
  Que o lembrar-me de ti  ter sadade
  Duma roseira brava tda em flor.

  Tuas mos foram feitas para a dor,
  Para os gestos de doura e piedade;
  E os teus beijos de sonho e de ansiedade
  So como a alma a arder do prprio amor!

  Nasci envolta em trajes de mendiga;
  E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
  Deste-me o manto de oiro de ranha!

  Tua irm... teu amor... e tua amiga...
  E tambm--tda em flor--a tua filha,
  Minha roseira brava que  s minha!...




NAVIOS FANTASMAS


  O arabesco fantstico do fumo
  Do meu cigarro traa o que disseste,
  A azul, no ar, e o que me escreveste,
  E tudo o que sonhaste e eu presumo.

  Para a minha alma esttica e sem rumo,
  A lembrana de tudo o que me deste
  Passa como o navio que perdeste,
  No arabesco fantstico do fumo...

  L vo! L vo! Sem velas e sem mastros,
  Tm o brilho rutilante de astros,
  Navios-fantasmas, perdem-se a distncia!

  Vo-me buscar, sem mastros e sem velas,
  Noiva-menina, as doidas caravelas,
  Ao ignoto Pas da minha infncia...




O MEU SONETO


  Em atitudes e em ritmos fleugmticos,
  Erguendo as mos em gestos recolhidos,
  Todos brocados flgidos, hierticos,
  Em ti andam bailando os meus sentidos...

  E os meus olhos serenos, enigmticos.
  Meninos que na estrada andam perdidos,
  Dolorosos, tristssimos, extticos,
  So letras de poemas nunca lidos...

  As magnlias abertas dos meus dedos
  So mistrios, so filtros, so enredos
  Que pecados d'amor trazem de-rastos...

  E a minha bca, a rtila manh,
  Na via-lctea, lirica, pag,
  A rir desfolha as ptalas dos astros!...




NIHIL NOVUM


  Na penumbra do prtico encantado
  De Bruges, noutras eras, j vivi;
  Vi os templos do Egipto com Loti;
  Lancei flores, na ndia, ao rio sagrado.

  No horizonte de bruma opalizado,
  Frente ao Bsforo errei, pensando em ti!
  O silncio dos claustros conheci
  Pelos poentes de ncar e brocado...

  Mordi as rosas brancas de Ispahan
  E o gsto a cinza em tdas era igual!
  Sempre a charneca brbara e deserta,

  Triste, a florir numa ansiedade v!
  Sempre da vida--o mesmo estranho mal,
  E o corao--a mesma chaga aberta!




       *       *       *       *       *




TRADUES

de

GUIDO BATTELLI




IO

(EU)


  Io son colei che va pe 'l mondo errante
  e nella vita mai trov sua stella,
  del Sogno e della Sorte son sorella,
  la triste crocifissa dolorante.

  Qual lieve ombra di nebbia vaporante
  che un triste suo destino s'arrovella
  di spingere alla Morte, io sono quella
  che niun comprender seppe un solo istante.

  Io son colei che passa e che niun vede,
  son quella che par triste e poi non ,
  che piange il suo dolor senza un perch.

  Son forse la vision che alcun sogn,
  d'alcun che venne al mondo a veder me
  e nella vita mai non m'incontr.




IL MIO DESTINO

(EM BUSCA DO AMOR)


  A me fu detto un giorno dal Destino:
  batti le strade della vita e chiedi
  a quanti incontrerai sul tuo cammino
  se quell'amor che brami hai da trovar.

  Scesi cantando al vento del mattino,
  sfidai nembi e tempeste, ad ogni porta
  bussando invano, a mo' di pellegrino,
  ma traccia del mio amor niun seppe dar!

  Ne chiesi a un vecchio: Ors, dimmi, vecchino,
  Amor vedesti? Sorpreso ei mi guard,
  scosse ridendo il capo e via pass.

  Ne chiesi a tutti, e fu dimanda vana,
  vana richiesta che mi scoraggi:
  ne la vita l'Amor niuno incontr.




TRISTEZZA

(NEURASTENIA)


  Ho l'anima ripiena di tristezza,
  rintocca nel mio cuor l'Ave Maria,
  la pioggia batte ai vetri e vi ricama
  trine leggere di malinconia.

  Piange il vento ululando e pare il grido
  d'un'anima che pena in agonia;
  di neve i fiocchi volano per l'aria
  migranti uccelli in ciel di fantasia.

  Tanta tristezza, pioggia, ma di che?
  Tanta passione, vento, ma perch?
  Crudel destino, neve, ci tocc.

  O pioggia, o vento, o neve, che tristezza!
  Ditela al mondo intero l'amarezza,
  Dite voi ci ch'io sento e dir non s!




IL CANTO DEL ROSIGNOLO

(ALMA PERDIDA)


  Tutta la notte il rosignol cant
  la sua passione, disperatamente,
  e quasi fosse l'eco d'una gente
  che in quella voce il suo dolor sfog.

  Fors'era un sogno che nel ciel sfum,
  e in doglia si converse blandamente,
  fors'era il pianto e l'anima dolente
  d'alcun che chiese amore e nol trov.

  L'intera notte pianse, io lacrimai
  perch in quel canto amaro e disperato
  l'atroce mio destino indovinai.

  E in quegli accenti che de l'angosciato
  mio tormento parevano la voce
  il pianto del mio cuore ravvisai.




SERA ALENTEJANA

(LANGUIDEZ)


  O sere di mia terra, o dolce incanto,
  d'un vago albor di giglio illuminate,
  sere di sogno, sere di novene,
  sere di Portogallo idolatrate.

  Come v'adoro e v'amo! Ecco ch'io sento
  battere l'ore come lievi pene,
  ore di pace e d'un dolore santo
  ore di fumo e cenere, serene...

  Le palpebre languenti, affaticate
  lievi si chiudon su l'azzurre viole,
  com'ali bianche stanche di volare.

  E su la bocca posan baci muti,
  mentre le mani sembran carezzare
  dell'ombra folta i pallidi velluti.




AMICA TRISTE

(AMIGA)


  Lascia ch'io sia la tua amica, Amore,
  solo l'amica, se non vuoi ch'io sia
  delle tue amanti tutte la migliore

  e la pi triste. Pena ed agonia
  che importa, Amor, se poi da te ne viene?
  --Benedetto--dir la voce mia...

   sempre un sogno buono quel tuo bene,
  anche se in pianto dal perduto e vano
  sogno mi dsti a rinnovar mie pene.

  Su, baciami le mani, ma pian piano,
  come, se nati nello stesso nido,
  noi fossimo fratelli un d lontano.

  Baciami forte... O pazza fantasia,
  guardar cos dentro le mani chiuse
  i baci ch'io sognai qui in bocca mia!




GIOVINEZZA INUTILE

(PEOR VELHICE)


  Son vecchia e triste. D'un sorriso l'alba
  su la mia bocca mai vidi apparir,
  gridando aiuto con la voce spenta,
  naufraga della vita, vo' a morir.

  La Vita che sul fronte a le fanciulle
  di bianche rose un serto suole ordir,
  su la mia fronte mistica di pazza
  il fior di morte pose a imputridir.

  Giovine ancora, se la giovinezza
  fosse soltanto de la nostra et
  n il cuore avessi colmo d'amarezza,

  triste vecchiaia il mio destin mi d,
  quella che nega a noi fino il ricordo
  d'essere stata bella in altra et.




IL MIO SEGRETO

(MINHA TRAGDIA)


  Non amo il sol, ho una paura folle
  che legganmi ne gli occhi il mio segreto,
  di non amar nessun, d'esser cos...

  Amo la notte immensa e misteriosa,
  al par della farfalla, che notturna
  mi sento volteggiare in petto, qui.




LANDA FIORITA

(CHARNECA EM FLOR)


  Sento nel cuore una dolcezza arcana
  che fa scordarmi l'ore dolorose:
  dall'eriche bruciate nascon rose;
  del pianto la tristezza  ormai lontana.

  Tutta m'avvolge una passione strana;
  nell'ombra ascolto voci misteriose
  che mormoran parole deliziose
  per cui delira la mia mente vana.

  In questa febbre ardente che m'invade
  dispoglio il triste lutto e le gramaglie
  e pi non sono, Amor, Sror Saudade.

  Brilla nell'occhio l'estasi d'amore,
  e la mia bocca aulente  come il miele,
  io son la landa brulla tutta in fiore!




VERSI D'ORGOGLIO

(VERSOS DE ORGULHO)


  Mi sprezza il mondo, ma non ha nessuno
  l'ala del canto che il Signor mi diede,
  io nacqui Principessa in fra la plebe:
  chiude il mio sogno e l'ansia mia segreta
  una torre d'orgoglio e di disdegno.
  Perch oltre i mari stendesi il mio regno,
  perch ne gli occhi porto la infinita
  azzurra immensa vastit dei mari.
  Tutte le luci e tutti gli ori aduno,
  perch'io son Io, e sono pur Qualcuno!
  Il mondo? E che c'importa il mondo, Amore?
  Il giardin de' miei versi tutto in fiore,
  la messe de' tuoi baci inebrianti,
  son l'estasi di sogno e sono i canti,
  le braccia sono, Amor in che mi tieni
  stretta al tuo seno, e dentro ne' sereni
  abbraciamenti il mondo esser ci pare
  in Lattea Via immensit stellare!




AUTUNNO

(AUTONAL)


  . . . . . . . . . . . . . . . .
  Autunno dai crepuscoli dorati
  di porpore, damaschi e di broccati,
  vesti la terra intera di splendor.

  Autunno da le sere silenziose
  e magnifiche notti voluttuose,
  in cui singhiozzo a delirar d'amor!




PASSIONE

(NERVOS D'OIRO)


  Quai bbboli d'oro mi squillano
  gli accesi miei nervi il lor canto,
  e in quella lor voce mi dicono
  i sogni d'amore e di pianto.

  Io scuoto ridendo i miei crotali
  nel corpo d'ebbrezza fremente,
  e della passione nel turbine
  si perde estasiata la mente.

  Danzando nel circolo magico
  sollevo il mio cuor nella mano,
  che pare una rosa di porpora
  promessa a un amore lontano.

  Con ritmo fantastico vibrano
  ardenti i miei nervi esaltati
  e un regno mi tessono splendido
  di canti e di sogni dorati!




VOLUTT

(VOLPIA)


  Poich del piacere
  mi corre gi il fremito
  per tutte le membra,
  io sfido la sorte,
  io t'offro il mio corpo
  dannato alla morte!

  Caduto  l'inganno
  dei labri che mentono,
  dispersa ha la nube
  il vento del norte:
  io t'offro coi baci
  un vino pi forte!

  Ho il grembo ricolmo
  di dalie di porpora,
  e l'agili mani
  nel sole le tingo,
  ma sembrano lance
  se al seno ti stringo.

  L'incanto perverso
  t'avvolge del magico
  mio corpo felino:
  ti stringe anelante
  un cerchio pi cupo
  di quelli di Dante!




PASSEGGIATA CAMPESTRE

(PASSEIO NO CAMPO)


  Amor diletto, o mio soave Amante,
  cogli l'ora che passa, ora divina
  bevi con me la tazza inebriante.

  Io tengo, Amor, la cinta svelta e fina
  e giovent mi brilla ancora in fronte,
  le mani ho di Madonna fiorentina.

  Vieni con me: noi saliremo il monte
  fra'l gran' maturo che gi 'l sole indora
  e l'acqua azzurra noi berremo al fonte.

  Di rosolacci ardenti ecco s'infiora
  tutta la messe: bianca la vitalba
  nell'aura fresca del mattino odora...

  A sera torneremo, e ne la falba
  luce di luna, pei sentieri agresti
  --soave a noi come un sorriso d'alba--

  strette le braccia, moveremo presti.




LE MIE MANI

(AS MINHAS MOS)


  Le piccole mani son bianche
    e pure qual acqua nascente,
    somigliam le rose intrecciate
    nel grembo all'Infanta d'Oriente.

  Son povere in veste di seta,
    son mani di fata o reggente;
    le dora d'un pallido raggio,
    il sole che volge a ponente.

  Son scarne, son bianche siccome
    quel viso di bimba dolente
    che ignora sua madre, che vive
    raminga cos fra la gente.

  Amor, le ricusi?... Sapessi
    la pena che il cuore ne sente!
    Mie piccole mani, s dolci,
    s buone, che solo contente

  D'un poco d'amore sareste,
    apritemi il cielo splendente
    di luce, che il volto carezzi
    d'un tenero amor sorridente!




TOLEDO


  Rubino ardente in una coppa d'oro
  oggi  Toledo. Amor, non me lo dire,
  che tal festa  per noi. Vedi, non oso
  un gesto sol, ch temo di svenire.

  Le tue mani carezzano tremando
  l'agil mio corpo d'ambra armonioso,
  ch' come un gelsomin tutto odoroso,
  ebro di sol, d'aroma e di piacere.

  Io chiudo l'occhio stanco ove persiste
  un romantico sogno vago e muto,
  --un grande amor  sempre grave e triste.

  Fiammeggia il Tago al sol coll'onda verde,
  leva al cielo una torre il grido acuto,
  e nel tuo bacio, Amor, l'alma si perde!




IN MEMORIAM


  Nella citt d'Assisi il Poverello
  santo Francesco a tutti iva insegnando
  che l'acqua, il sol, la terra, il fior pi bello,

  le spin che calca, il piede insanguinando,
  la Povert, che tutto quanto al mondo
  di buono o vile noi ne andiam trovando.

  Fratello  nostro. Esaltasi in giocondo,
  slancio d'amore il canto e dice:
  Ave, suor Acqua, e Sole rubicondo!

  Ahi, Poverello, il canto tuo felice
  erra fors'anco dentro le olivete
  di S. Damiano sovra la pendice,

  ma come triste a me ne le segrete
  lacrime suona! Ne la vita, solo
  m'ebbi un fratello, che ad eccelse mete

  mentre ne' cieli indirizzava il volo
  precipit. Oh chi dir lo schianto
  muto del cuore, chi dar consolo

  al mio perenne desolato pianto?
  Fratello in vita ebbi te sol, sol uno,
  morto che vegli al mio destino accanto,

  n pi fratello chiamer nessuno!




ALENTEJO

(POBRE DE CRISTO)


  O terra mia natal, che in un'immensa
  pianura sconfinata avvampi al sol,
  terra cui stende su le case bianche
  il chiar di luna un magico lenzuol,

  Terra che ne' tuoi lunghi crepuscoli
  non senti batter d'ala pure un vol,
  terra moresca, che un rubino ardente
  sembri distesa col fiammante suol,

  Terra in cui nacque il dolce mio fratello
  e la giovine madre mia mor,
  io batto alla tua porta; son mendica,
  e ormai nell'ombra va morendo il d.

  Lascia ch'io posi in te l'anima stanca
  e per la notte trovi albergo qui,
  terra adorata, ove mia madre dorme
  e bionda un giorno in giovent fior.




ALBERI DELL'ALENTEJO

(RVORES DO ALENTEJO)


  Ore morte. Disteso a pi del Monte
  il piano  una fornace. Torturate
  le piante, dall'arsura affaticate,
  chiedono a Dio la grazia d'una fonte.

  Fragranti le ginestre su le conte
  strade del bosco splendono dorate,
  si stagliano le piante impolverate,
  sul tragico profil de l'orizzonte.

  Alberi, o cuori, anime piangenti,
  o tristi al par di me, alme imploranti
  in van rimedio per la lor tortura,

  Alberi, non piangete! Anch'io da dura
  sete sospinta ne' mei passi erranti,
  anelo abbeverarmi a le sorgenti!




EVORA

(VORA)


  Evora, le tue strade solitarie
    e silenziose sotto un ciel violetto
    la remissione chiedono al Signore
    di vanit che ci fiorr nel cuore.

  Io corsi invano un d tante cittadi:
    solo qui sento ch'ardono i tuoi baci,
    solo qui sento arridermi al pensiero
    i sogni ch'io sognai nell'altre etadi!

  Evora, al guardo tuo, al dolce aspetto,
    al tuo sorriso ambiguo nell'aprile,
    il cuor mi balza d'allegrezza in petto.

  C' il volto d'un fantasma in ogni piazza;
    e l'alma mia dolente qui rivive
    il lieto sogno ch'io sognai ragazza!




LA FINESTRA DI GARCIA DE REZENDE IN EVORA

( JANELA DE GARCIA DE REZENDE)


  Finestra antica sopra la via piana,
  tutta di luce imbincati la luna;
  io forse un giorno, in un'et lontana,
  io fui la rosa che al balcon fior.

  Un giorno forse,--oh la mia mente vana
  che i morti sogni come foglie aduna!--
  col mio superbo cuor d'alentejana
  al tuo balcone m'affacciai un d.

  Mistica donna in altre primavere
  io vissi ore fulgenti in altre et;
  vidi passar cortei fra le bandiere
  spiegate al vento per la mia citt.

  D'un principe regal vidi l'insegna
  levata al sole in aria trionfal;
  recava un cuor trafitto: era l'emblema
  ch'io scelsi a dire il mio segreto mal!




SOGNO VANO

(SONHO VAGO)


  Un sogno alato attravers un istante
    la mente folle, presa da demenza,
    e mi risuona qual d'acque cadenza
    nell'alma ancora triste e s distante...

  Dov' l'Eletto del mio cuor, l'Infante
    che m'ami e fonda col suo vivo ardore
    il triste gelo che mi stringe il cuore,
    il Principe incantato, il dolce Amante?

  Assorta in sogno, io non so pi se sia
    d'un bacio l'eco ch'al labbro mor,
    o fatuo fuoco che la notte splende
    sovra 'l sentier di chi 'l cammin smarr.

  Ti vengo in traccia e gi ti veggo Amore,
    e tu pur m'incontrasti ma fu invan.
    Non vider gli occhi tuoi ci che nel cuore
    porto racchiuso e stringo nella man!




AMBIZIOSA

(AMBICIOSA)


  Per quei fantasmi che nel ciel passarono
    quai nubi erranti e che giurai d'amar,
    mai le mie braccia languide tentarono
    il gesto vano che cerca arrestar.

  Se le mie mani trepidanti osarono
    stringere al seno un palpitante amor,
    quante pantere barbare straziarono
    sol per la gioia d'un cieco furor!

  Or l'alma  come funeraria pietra
    in cima al monte, interrogando il ciel;
    l'umano amor dinanzi a lei s'arretra,
    e vano sogno a chi, rompendo il vel

  del senso, anela ad un divino amore,
    sembra ogni accento. Gi lo spirto mio
    fatto s' franco del terreno errore.
    L'amor d'un uomo? Voglio solo un Dio!




I MIEI VERSI

(OS MEUS VERSOS)


  Strappa quei versi ch'io ti scrissi, Amore,
    gttali al fuoco, o se li porti il vento,
    e, s'a memoria tu li sai, dal cuore
    te li cancelli oblio in un momento.

  Quanti poeti non cantar d'amore,
    nell'estasi del loro sentimento;
    e quanti non soffrir del mio dolore
    le pene stesse che nel cuore io sento?

  Quel ch'io sognai gi ripeteron tante
    voci che Amore e che il Dolor costrinse,
    --un batter d'ali, un gemito dolente--,

  Strappa i miei versi. Qual follia mi vinse...
    Come se un grande amor qui nella vita
    non fosse poi l'amor d'ogn'altra gente!




IDEALE

(EU NO SOU DE NINGUEM)


  .........................................

  Io non son di nessun. Sia chi mi vuole
    luce di sole in un meriggio ardente,
    rechi negli occhi, come un'acqua chiara
    la fulgida pupilla d'un veggente.

  Linfa che nutre agli alberi le gemme,
    murmure d'ali d'un minuto insetto,
    vento che strappa vele dall'antenne!

  Diverso sempre ad ogni ora che volge,
    forza viva, perenne, in movimento,
    stella che gli astri in suo cader travolge!




SILENZIO

(SILNCIO)


  Nell'ore tristi del mio van penare,
  a notte fonda, ch'ogni voce  morta,
  io sono il vento che tenta d'entrare,
  che geme e piange e batte a la tua porta.

  Vivo lungi da te, ma cosa importa?
  Per me non vivo ormai.--Non senti errare,
  della tua voce nell'incanto assorta,
  un'ombra lieve presso il limitare?

  Io ti son presso pi che tu non creda:
  oh, quante volte il guardo mio si posa
  sovra il tuo libro, bench tu non veda!

  Ti stringo in braccio, quasi un figlio mio;
  non senti lieve un passo ne la casa?
  --Silenzio, Amor mio bello, apri, son io!




FOLLIA

(LOUCURA)


  Tutto cade e precipita con romba
  spaventosa!--Io non so pi dov'era
  dianzi! Il mio bel castello, il mio palazzo
  l'areo balcon van nel sogno...
  Oh Dio, nulla, nulla io pi non so!...
  Ridda un tumulto di pensieri ardenti
  nella mia mente, in lampi di follia!
  Strappansi sete, infrangonsi diamanti...
  Oh Dio, che nulla ormai posseggo pi!
  Solo incbi di sogno e deliranti
  insonnie e pazzi lampi di follia
  traversano la tenebra ove muove
  anelante il mio pi. Oh, chi mi salva?...
  Oh spaventoso orror d'essere sola,
  e udir nell'alma riecheggiare il folle
  ridere d'infinite alme dementi!




ALLA MORTE

(DEIXAI ENTRAR A MORTE)


  Lasciate che venga sicura la Morte,
  che venga a rapirmi nell'ombra laggi,
  a lei spalancate sien tutte le porte,
  ch stanche gi l'ali non battono pi!

  Chi sono nel mondo? Io sono un'illusa
  che il chiaro di luna gi in mano serr,
  pensando d'avere la Vita racchiusa;
  aperse le mani... e nulla incontr!

  Perch fra dolori e lacrime un giorno
  La vita mi desti? Perch mi nutr
  o mamma, il tuo seno, se il frutto soltanto
  d'un giglio esser devo che triste sfior?




       *       *       *       *       *




NDICE


LIVRO DE MGOAS

                                         Pg.

  ste livro                               9

  Vaidade                                 10

  Eu                                      11

  Castel da tristeza                     12

  Tortura                                 13

  Lgrimas ocultas                        14

  Trre de Nvoa                          15

  A minha dor                             16

  Dizeres ntimos                         17

  As minhas iluses                       18

  Neurastenia                             19

  Pequenina                               20

  A maior tortura                         21

  A flor do sonho                         22

  Noite de sadade                        23

  Angstia                                24

  Amiga                                   25

  Desejos vos                            26

  Pior velhice                            27

  A um livro                              28

  Alma perdida                            29

  De joelhos                              30

  Languidez                               31

  Para qu?                               32

  Ao vento                                33

  Tdio                                   34

  Minha tragdia                          35

  Sem remdio                             36

  Mais triste                             37

  Vlhinha                                38

  Em busca do amor                        39

  Impossvel                              40


LIVRO DE SROR SADADE

  Sror sadade                           45

  O nosso livro                           46

  A que tu s                             47

  Fanatismo                               48

  Alentejano                              49

  Fumo                                    50

  Que importa?                            51

  Meu orgulho                             52

  Os versos que te fiz                    53

  Frieza                                  54

  O meu mal                               55

  A noite desce                           56

  Caravelas                               57

  Inconstncia                            58

  O nosso mundo                           59

  Prince Charmant                         60

  Anoitecer                               61

  Esfinge                                 62

  Tarde demais                            63

  Cinzento                                64

  Noturno                                 65

  Maria das Quimeras                      66

  Sadades                                67

  Runas                                  68

  Crepsculo                              69

  dio                                    70

  Renncia                                71

  A vida                                  72

  Horas rubras                            73

  Suavidade                               74

  Princesa desalento                      75

  Sombra                                  76

  Hora que passa                          77

  Da minha janela                         78

  Sol poente                              79

  Exaltao                               80


CHARNECA EM FLOR

  Charneca em flor                        85

  Versos de orgulho                       86

  Rstica                                 87

  Realidade                               88

  Conto de fadas                          89

  A um moribundo                          90

  Eu                                      91

  Passeio ao campo                        92

  Tarde no mar                            93

  Su tu viesses ver-me                    94

  Mistrio                                95

  O meu condo                            96

  As minhas mos                          97

  Noitinha                                98

  Lembrana                               99

  A nossa casa                           100

  Mendiga                                101

  Supremo enleio                         102

  Toledo                                 103

  Outonal                                104

  Ser poeta                              105

  Alvorecer                              106

  Mocidade                               107

  Amar!                                  108

  Nostalgia                              109

  Ambiciosa                              110

  Crucificada                            111

  Espera                                 112

  Interrogao                           113

  Volpia                                114

  Filtro                                 115

  Mais alto                              116

  Nervos de oiro                         117

  A voz da tlia                         118

  No ser                                119

  ?                                      120

  In memoriam                            121

  rvores do Alentejo                    122

  Quem sabe?                             123

  A minha piedade                        124

  Sou eu!                                125

  Pantesmo                              126

  Pobre de Cristo                        127

  A uma rapariga                         128

  Minha culpa                            129

  Teus olhos                             130

  He hum no querer mais que bem querer  131


RELIQUI

  vora                                  145

   janela de Garcia de Rezende          146

  O meu impossvel                       147

  Em vo                                 148

  Voz que se cala                        149

  Para qu?                              150

  Sonho vago                             151

  Primavera                              152

  Blasfmia                              153

  O teu olhar                            154

  Noite de chuva                         155

  Tarde de msica                        156

  Chopin                                 157

  O meu desejo                           158

  Escrava                                159

  Divino instante                        160

  Silncio!                              161

  O maior bem                            162

  Os meus versos                         163

  Amor que morre                         164

  Sbre a neve                           165

  Eu no sou de ningum                  166

  Vo orgulho                            167

  ltimo sonho de Sror Sadade        168

  Esquecimento                           169

  Loucura                                170

  Deixai entrar a morte                  171

   morte                                172

  Pobrezinha                             173

  Roseira brava                          174

  Navios fantasmas                       175

  O meu soneto                           176

  Nihil novum                            177


TRADUES

  Io                                     181

  Il mio destino                         182

  Tristezza                              183

  Il canto del rosignolo                 184

  Sera alentejana                        185

  Amica triste                           186

  Giovinezza inutile                     187

  Il mio segreto                         188

  Landa florita                          189

  Versi d'orgoglio                       190

  Autunno                                191

  Passione                               192

  Volutt                                193

  Passeggiata campestre                  194

  Le mie mani                            195

  Toledo                                 196

  In Memoriam                            197

  Alentejo                               198

  Alberi dell' Alentejo                  199

  Evora                                  200

  La finestra di Rezende                 201

  Sogno vano                             202

  Ambiziosa                              203

  I miei versi                           204

  Ideale                                 205

  Silenzio                               206

  Follia                                 207

  Alla morte                             208




FLORBELA ESPANCA

AS MSCARAS DO DESTINO

(CONTOS)

EDIO MARANUS

ALGUMAS OPINIES DA CRTICA SOBRE ESTE LIVRO:


Do DIRIO DE LISBOA

    _As Mscaras do Destino_, so contos em prosa repassada de poesia, e
    em qualquer dos oito captulos, aflora uma singular e pulcra beleza
    verbal.

    .........................................

    A autora, profundamente mulher delicadssima de sensibilidade, at
    aos pramos da mstica sentimental, possue ao mesmo tempo um vigor
    clssico de Apolo das belas formas...


Do DIRIO DE NOTCIAS

    A forma de todos les  inexcedivel de cr e emoo. L-se sse
    livro com o corao confrangido, mas com um excepcional gzo
    espiritual, admirando-se em tdas as suas pginas a escritora
    insigne.




ERRATA


  Pg.                 Onde se l                 Deve ler-se

  24     9. Verso    no... no se apaga        no... nada se apaga

  29     3.   "      alma de gente              alma da gente

  30     9.   "      que te amaram              que te amarem

  62     9.   "       hora da doce ansiedade    hora doce da ansiedade

  63     7.   "      a noite a iluminar         a noite iluminar

  80     1.   "      Erguer!                    Erguer

  137    2.   "      Conta-me a glria,         Conta-me a glria




[End of _Sonetos Completos_
by Florbela Espanca, translations by Guido Battelli]

[Fin de _Sonetos Completos_
par Florbela Espanca, traductions par Guido Battelli]
